segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Brasileiro (*)





Mais um dia, mais uma manchete. Ao sair de casa para trabalhar, Zaqueu pegou um jornal na banca de revistas da esquina e, sem o mínimo espanto, leu a primeira página, que estampava mais um caso de corrupção. Ministro fulano é acusado de suborno, presidente nega conhecimento. Deputado  diz que não tem conta bancária no exterior, senador implicado em esquema de fraudes em licitação. Tanto faz o que era. No outro dia, esses mesmos jornais estão com outras matérias e os anteriores estão forrando gaiolas, embrulhando peixes ou servindo de recortes para trabalhos escolares, o barulho é efêmero e a opinião pública, volátil. Daqui a alguns anos todos voltam, eleitos e reeleitos. Somos cordiais, cristãos, perdoamos, aceitamos, comungamos, elegemos, trabalhamos, desenvolvemos, lemos, amamos e vivemos, absortos nos nossos infernos, públicos e privados, altruisticamente egoístas.

Zaqueu tomou o ônibus na quinta quadra do Setor Sudoeste e encaminhou-se para a Esplanada, onde trabalhava no  Ministério dos Transportes como analista administrativo. Entrou no prédio, bateu o ponto com seu polegar. Pensou o que pensava todos os dias, Como alguém que não tivesse as mãos poderia bater aquele ponto biométrico? Riu sozinho da observação, como sempre, pois que valia tem alguém que não tem as mãos para o serviço público? Como vai carimbar, assinar, registrar, segurar as xícaras que substituíram os copinhos de café? Chegou ainda sorrindo à sua mesa, no segundo andar, o que lhe valeu a simpatia dos seus colegas. Sempre apreciamos pessoas felizes, alegres, radiantes, simpáticas.

Trabalhava com processos administrativos. Basta que se diga isso, pois tudo na administração pública compõe processos, desde a aquisição de papel higiênico até a concessão de passagens para os assessores do ministro irem para Fortaleza participar de eventos nos resorts cearenses. Uma sucessão de papéis, numerados e rubricados, contendo atas, editais, nomes, atestos, carimbos e mais uma extensa lista de abstrações documentadas, reunidas num volume organizado criteriosamente, com o pretexto de atribuir lisura e legalidade aos atos administrativos. Qualquer desavisado, selecionado às escuras numa escola, pública ou privada, que botasse a vista no conteúdo das caixas de plástico que repousam na mesa de Zaqueu não lhes atribuiria nenhuma dessas divinas qualidades. Diria apenas que é uma pilha de papel, apropriada para os mesmos usos dos jornais de ontem.

Para Zaqueu não era diferente. Se botassem um baú cheio de merda no lugar daqueles papéis mofentos a sua frente, limitaria-se a colocar luvas e máscara e prosseguiria com o manuseio, esperando, como sempre, o primeiro dia útil de cada mês, único dia em que acreditava no que estava fazendo. O pagamento e a estabilidade num país como o nosso, tudo isto conta muito. E além do que, não é tão ruim assim trabalhar sete horas por dia revirando documentos, revisando, listando itens essenciais e supérfluos. Poderia ser pior, afinal, há pessoas que realmente lidam com baús de merda. Este pensamento sempre animava Zaqueu, como uma piada que lembramos sozinhos e não dividimos com os outros, receosos que a graça se perca.

Hora do almoço. Zaqueu desceu os dois andares pela escada e, chegando ao térreo, foi ao banheiro. Esperou que um outro servidor público saísse e logo depois entrou para o sanitário, fechando  o trinco da porta. Próximo ao chão, deslocou um azulejo que estava solto, revelando um buraco que continha uma caixa de ferramentas, que puxou para fora, botando em seguida o azulejo de volta. Rapidamente saiu à rua, que a esta hora estava apinhada de funcionários públicos, pegando seus carros ou comendo lá mesmo, em carrinhos que vendem comida. Pegou um táxi e disse ao motorista que o deixasse no Memorial JK.

Conversou animadamente com o taxista sobre futebol, era quarta-feira e o time para o qual torciam iria jogar contra o líder do campeonato naquela altura. Chegaram. Demorou um pouco pois era quarta-feira, muitos parlamentares e assessores, muitos carros e poucas vias para os mesmos poucos lugares. Zaqueu pagou trinta reais e disse para o outro ficar com o troco, um e vinte e cinco, prontamente aceitos pelo taxista. Desceu ansiosamente do carro e pôs-se a caminhar e já ia a uns duzentos metros quando sentiu uma mão pesada no seu ombro. Assustado virou-se e viu que era o motorista com a caixa de ferramentas: havia esquecido no carro. Agradeceu e quis até lhe dar mais dinheiro, mas, quando ia pegar a carteira, desistiu. Deixou na conta da gentileza e ambos seguiram seus caminhos.

Zaqueu caminhou pelo imenso canteiro, de mato ralo e algumas árvores, enquanto os carros seguiam pelas veias e artérias da capital. O clima estava quente, mas seco e soprava uma agradável brisa. Depois de ter andado um bom bocado, subiu numa árvore pequena e ficou observando o movimento da via. Sentiu de repente uma grande paz, e foi neste estado que tirou as partes do rifle, que estava desmontado dentro da caixa de ferramentas. Montou cuidadosamente, lustrando as partes com uma flanela laranja e checando cada peça, cano, gatilho, trava. Colocou uma mira de longo alcance na alça e carregou a arma. Apoiou a soleira no ombro direito e observou pela lente. Ele não deve demorar muito, pensou.

Demorou vinte minutos. Na entrada da refinada churrascaria parou um carro importado, alemão, preto. A placa oficial não deixava dúvidas, era muito importante a pessoa que descia do carro, rumo à porta do restaurante. Zaqueu olhou aquela cara, aquele bigode, aqueles anos todos, aquelas manchetes todas, aqueles dias todos. Hoje é diferente, pensou Zaqueu, hoje alguém vai reagir. O senador caminhava lentamente, com seu passo solene de autoridade, cercado de assessores e um segurança que, desacostumado às ameaças, distraidamente falava ao celular. Quando chegou em frente à porta de vidro, que um dos seus asseclas abriu prontamente, parou. Sentiu que esquecia alguma coisa, bateu com as mãos nos bolsos do paletó. Não deve ser nada, pensou, ainda querendo saber o que era. Foi pouco tempo que durou este pensamento porque Zaqueu apertou o gatilho e a bala foi mais rápida que a memória do senador, que já andava um tanto falha, e logo os neurônios do parlamentar decoraram a vitrine da entrada da churrascaria, onde estavam expostas algumas peças de carne bovina sob uma luz forte, simulando fogo.

O tumulto foi generalizado, os seguranças corriam de um lado para o outro sem saber o que fazer, ligaram para polícia, para o exército. As pessoas ilustres, outros parlamentares, empresários reunidos com eles, todos saíram para ver o corpo do velho oligarca quase sem cabeça, estendido na entrada. Os mais afoitos fotografavam, os cinegrafistas amadores filmavam com seus telefones. Zaqueu assistiu à aglomeração, ao furdunço, de longe, ainda trepado na árvore. Quis contemplar por alguns momentos o seu feito. Por alguns segundos, ele se demorou ali, parado, com o espanto estampado no rosto, enquanto segurava o rifle ainda quente do tiro. De súbito, despertou e limpou a arma com a flanela, encaixando-a, junto à caixa, nuns galhos acima de sua cabeça. Desceu quando o trânsito estava já sendo paralisado e as primeiras sirenes já se ouviam, um pouco longe.

Começou a andar rapidamente até a parada de ônibus. Suava muito, mas o calor não deixava espaço para suspeitas. Havia muita gente no ponto e Zaqueu ficou preocupado. Ainda não sabem, não deu tempo, pensava enquanto revia todos os seus atos desde que chegara ao trabalho naquela manhã. Não há motivo para alarde, repetia.

O trânsito andou um pouco e o ônibus chegou. Subiram todos e Zaqueu sentou-se ao lado de um rapaz. Há poucas coisas mais irritantes do que engarrafamentos, ainda mais aquele, que ninguém sabia o que estava provocando, mas já se tinha certeza que era algo de anormal. Começaram a brotar soldados e cabos, correndo de um lado para o outro, brandindo fuzis e recebendo ordens dos sargentos, Cobre aquele lado, O outro, Porra, deixa de ser surdo, cabo Souza!, e outras coisas desesperadas de quem não sabe o que fazer. Estavam abordando todos os transeuntes e logo começaram a revistar os veículos parados no trânsito.

Zaqueu começou a ficar nervoso, aquilo não estava nos seus planos. Não pensou que eles iriam paralisar o tráfego tão cedo, nem que os militares chegariam tão rápido. A rapidez se deu porque havia um destacamento de duzentos homens próximo, voltando do Estádio Mané Garrincha, onde tinham participado de um treinamento com vistas à Copa do Mundo. Naquela altura, o crime já estava nas redes sociais e as autoridades já haviam sido acionadas, movendo toda a geringonça brasileira de segurança. Policiais militares mal treinados, policiais civis corruptos, policiais federais indolentes, forças armadas, pobres e emburrecidas pela Nova República, como garantia de aniquilar seus impulsos golpistas. Não tenho arma e não tenho nada que me incrimine, estou tranquilo, pensava.

Chegou a vez do ônibus em que estava Zaqueu. Entraram dois militares e começaram uma gritaria, Todo mundo calmo!, naquele velho estilo nacional de cooperação compulsória, intimidação amigável. O soldado foi na frente, olhando cada um dos passageiros enquanto segurava baixo seu fuzil. Um cabo cobria o primeiro da entrada. Zaqueu se segurou para não gritar de desespero, manteve o sangue frio e reduziu a sua expressão a um franzir de sobrancelhas, como se dissesse, Que merda é essa?, mas continuava suando muito. O soldado continuava a examinar com os olhos angustiados os passageiros. Uma senhora espirrou e a praça virou-se subitamente e apontou a arma na cara da velha, que começou a passar mal, aumentando o clima de terror, com gritos e choros. Um velho reclamou, Que está acontecendo?. O soldado respondeu, Meu senhor, houve um crime terrível ainda há pouco ali no Setor Hoteleiro Sul, e recebemos ordens de cercar tudo por aqui. Mas o que foi?, o velho questionou novamente. Parece que mataram alguém importante, disse o soldado. Zaqueu estava paralisado de pânico e olhava para fora, evitando encarar os dois. Tudo limpo aí, Amaral?, gritou o cabo. Ao que parece sim, tudo limpo, respondeu o soldado. Saíram do ônibus e comunicaram ao sargento que estava dando ordens em forma de gritaria a um monte de outros militares, revistando veículos em todas as direções. Como assim tudo limpo, porra?! Larguem de ser frescos e voltem àquela porra daquele ônibus e me tragam um suspeito, porra! É ordem, de todo carro tirem um filho da puta!, vociferou o exaltado sargento.

Zaqueu ouviu tudo aquilo com um aperto no coração. Era o fim. O soldado entrou novamente, desta vez com o fuzil ameaçadoramente alto. Tornou a examinar os passageiros. Todos eram velhos, doentes, mulheres, japoneses, obesos demais para terem feito aquilo. Bateu os olhos onde estava sentado Zaqueu e foi até lá. Ao vê-lo se dirigir até onde estava, Zaqueu teve vontade de sair correndo, tomar o fuzil e fazer reféns, mas não conseguia mexer nem as mãos, quanto mais fazer todo este escarcéu. Esperou. Os poucos passos do soldado demoraram uma eternidade e ele se preparou para ser preso, quando seus olhos de repente miraram o rapaz que estava sentado ao seu lado. Tranquilizou-se instantaneamente, baixou a cabeça e até sorriu. Ao chegar, o soldado esbravejou, Vamos levantando!, Como?, respondeu Zaqueu. Não é contigo não, é com este elemento aí. O rapaz tomou um susto com a intimação do soldado, mas levantou-se de pronto, resmungando em voz baixa qualquer coisa. Não era a primeira vez que as ditas autoridades brasileiras davam-lhe este tratamento, era preto e pobre. Como somos cordiais, o rapaz desceu calado e o olhar de Zaqueu acompanhou-o até ele ser recolhido a um caminhão que estava improvisado de camburão, já abarrotado de pobres rapazes pretos.

Dentro do ônibus, Zaqueu era só alívio. Esparramou-se, sorrindo, no banco do ônibus e ficou ainda mais radiante quando ouviu o sargento gritando, Pode desviar esses carros, já estão limpos!, e o veículo começou a se mover. Seu telefone tocou. Era seu chefe, que disse, Zaqueu, nem precisa voltar do almoço, aconteceu uma cagada, ninguém sabe ainda o que foi, mas parece que atiraram no Presidente do Senado, está todo mundo em pânico, Tudo bem, Mendonça, estou no ônibus, está tudo parado por aqui, vou para casa então, Certo, um abração, e desligou.

Mais um brasileiro à solta.

(Igor Farias)

(*) Mais um texto de Igor Farias, colaborador-simpatizante deste blog.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Égua da largura!





“Quando eu ti vi eu gostei
Olhei nos teus olhos
Me apaixonei
E a cantada que eu te dei não sei
Estava tremendo
Confesso até que fui mais ou menos
Quando fui te beijar xonei
Quando te abracei te amei
Aquela noite falamos de estrelas
Prometi ligar liguei
E você me perguntou qual tamanho do nosso amor

Te amo um tantão assim ó
Te amo um tantão assim ó
Te amo um tantão assim ó
Te amo um tantão assim ó”

Essas ondas mecânicas produzidas por dispositivos eletrônicos que expressam experiências populares invadiam a parte de traz da delegacia. Delegacia do Jurunas. Os ponteiros do relógio já lento, quase sem pilhas, marcavam três da madrugada. Alves entra na sala de interrogatório. Uma lâmpada incandescente, duas cadeiras e uma mesa, no centro da sala – infiltrações, pintura descascando, odor de úmido e mofo. Sala da verdade.

“Pereira, por gentileza, traga o acusado. Quero interrogá-lo”

“Tá certo, dôtor, vou trazer esse filho-da-puta, o senhor trata com muita educação esses porras, eles são traiçoeiros, não podem ser tratados como gente, eles são animais, agem como animais, precisam ser tratados como animais. Ele vai ter que cantar a pedra de quem matou o nosso camarada de farda, o cabo Almir. Eu só quero saber quem foi. Só saber”

Almir era um dos investigadores, compadre de Pereira e Pantoja, homem de confiança do delegado Alves. Às dez horas da noite, estava fazendo rondas de rotina pelas ruas do bairro. Ele tinha dois problemas: ser mulherengo e beber demais. E uma qualidade: gostar de ser policial. Motivos de sua morte. Parado, perto do bar do ameba, bebia uma cerveja em serviço, como de costume, junto com o soldado Pantoja. Dois homens na moto, o passageiro saca uma punheteira, dispara dois tiros no peito do Almir, no momento em que ele levava o copo a boca. Ele não gosta de usar colete. Suas costelas ficaram dilaceradas, osso, carne e sangue espalhados na frente do bar. Pantoja ficou imóvel, atônito, sujo de sangue. Execução sumária.

“Tá aqui, o Cúrio, dôtor”

“Sente-se aí, me diga seu nome”

“Alcindo”

“Alcindo, do quê?”

“Alcindo Silva”

“Então, informações privilegiadas me confirmam que sabes quem foi que matou o cabo Almir. Quem foi?”

“Não sei quem foi”

“Vamos me diga, quem foi?”

“Não sei mesmo, dôtor”

“Ele sabe sim, esse filho-da-puta” – Pantoja mete um soco seguro na cara de Cúrio. Ele vomita uma pasta de sangue grosso, e cospe dois dentes. Alves não concordar com esse tipo de violência descabida, mas apenas olha, quer ver as reações. Sobretudo, de Cúrio.

“Bora, seu bastardo, filho-da-puta, fala quem foi que matou o Almir. Todo mundo sabe que tinhas uma richa com ele, mal-entendido, sei lá. Fala logo, foste tu ou mandaste matar, covarde” – disse Pereira.

“Caralho, eu sei que querias nos intimidar. Dar dois tiros de punheteira a queima roupa não é maldade, não é vingança, não é acerto de contas. É afronta. É desafio. É putaria-da-grossa. É colocar a prova a honra da corporação. Pode ter certeza, filho-da-puta, filho-duma-varejeira, que isso vai ter volta, não vai ficar assim. O Almir vai ser vingado, a ferro e sangue” – gritou insandecidamente Pantoja.

Cúrio ouvia a tudo de cabeça baixa, sangue escorrendo da boca, algemado na cadeira, com os braços para traz.

“Meus caros, vamos aqui fora, por favor” – disse Alves.

“Não podemos deixar esse porra respirar” – disse Pantoja.

“É verdade, dôtor” – concordou Pereira.

“Estou pedindo, por favor”

“Tá certo”

“O senhor que manda”

Saíram da sala. O último a sair foi Pantoja, olhou para Cúrio que levantou a cabeça para ver a saída deles. Pantoja apontou com um olhar de ódio, passando o indicador no pescoço, fazendo sinal de morte.

“Rapazes, vou beber água e ir ao banheiro. Quero vocês aqui fora, sem violência”

Alves foi primeiro ao banheiro, saiu da presença de Pantoja e Pereira.

“Porra, Pereira, eu gosto do dôtor, ele é gente boa, nos trata com dignidade e respeito, mas às vezes fico puto com essa frouxidão dele. Não dá pra tratar vagabundo com educação. Porra, nem armado ele anda. Ele tá brincando de polícia”

“Calma, Pantoja, é assim que ele trabalha. Na calma, com conversa, sem violência. Nas delegacias que ele passou, já ouvi comentários que a bandidagem respeitava ele”.

“Não acredito, isso é história pra boi dormi, da carronchinha. Conversa não serve nem para os filhos, que é sangue do teu sangue, imagina para esses bastardos. Porrada é pouco para vagabundo”

“Concordo contigo. Eu sei disso. Mas ele trabalha assim, e diz que dá certo. Uma dia desses, estávamos de papo pro ar, sem nada pra fazer, ele veio conversar comigo. Disse que usa da Psicologia, do inconsciente, das fobias, de um tal de Freud, e me perguntava se não tinha visto isso na Escola de Formação e tals. Achei estranho o papo dele, mas ouvi, não entendi muita coisa, na verdade quase nada, mas ouvi. Ele fala bem, dá gosto de ouvi. Mas isso é só falatório, não funciona nas ruas”

“HEHEHE, ainda dá ouvido pra essas baboseiras. Dos tempos da Escola, há uns vinte anos atrás, o que me lembro de Psicologia é de uma apostila que quando li, apenas uma vez, dizia que era o estudo da mente, alguma coisa assim. Besteira. É tiro, bala, morte que resolve o problema da vagabundagem, desses bandidos filhos-da-puta”

“HEHEHEHEHE, ficas putinho mesmo né”

“Não gosto dessas fuleragem de intelectual metido a besta. Fala um monte de coisa difícil, anda só de carro, recebe um salário porrudo, pra ficar falando do que ele não vive, só do que ele lê nos livros. Um bando de filhos-da-puta das letras”

“HEHEHEHE, gosto de te ver puto, ficas igual a esses intelectuais de merda”

“Vá se fuder, HEHEHEHE”

“Depois dessa onda toda, a gente vai lá no bar do ameba tomar umas e falar com ele, deve tá aterrorizado”

“Eu que o diga, foi foda. Bora lá mesmo”

“Ahhh, mas uma coisa que o dôtor disse e eu concordo com ele é que depois que sabes qual é o maior medo de um homem, não precisas de uma arma ou bala, é apenas preciso que faças ele acreditar no seu medo”

“HUUUUUMMMM... o dôtor tá te fazendo virar um viadinho com esses papos. Medo é o caralho! Medo de cú é rola! HEHEHEHE”

“És foda, não dá pra falar sério contigo”

“Morreu, morreu, o dôtor tá vindo aí”

“Égua dôtor, o senhor demorou”

“Foi, me deu uma vontade de cagar. Cagar no meio de um interrogatório as quatro da matina é foda”

“HEHEHEHE, é verdade dôtor”

“Tive uma idéia, perdi a paciência, esse porra vai falar. Pantoja, arruma a viatura. Pereira, pega esse filho-da-puta lá na sala. Vou falar com o Almeida segurar as pontas aqui na delegacia”

Dez minutos depois, estavam na viatura.

“Pra onde dôtor?”

“Lá pra vala da Quintino com a motorizada, lá onde o pessoal desova os corpos” – falando alto e piscando o olho para o Pantoja.

“Ahhhh, claro. Lá não tem problema, a população apóia que desovem presuntos lá”

“Eu sei, bora rápido, antes de amanhecer, quero ver esse Cúrio cantar”

“HEHEHE, bora ver”

Dez minutos depois, chegaram na beira da vala. Mato e lixo. Cheiro podre de lixo. A vala está cheia, com correnteza forte.

Sou é da galera da golada
Traz o balde de gelada
Que a festa vai rolar
Treme, treme, treme
E agita pra valer
A galera da golada”


Tocava num boteco em frente, meio baixo, já fim de festa. Três homens de meia-idade conversavam animadamente sobre futebol. Quando viram a polícia chegar, parecia que já sabiam o que ia acontecer, continuaram a conversar, em voz mais baixa, e fingindo que nada acontecia ali. Lei do silêncio.

“Traz esse porra aqui, Pantoja”

“Selado, dôtor”

“Bora fazer esse Cúrio cantar, agora mesmo”

“Pereira, trouxestes o saco?”

“Trouxe”

“Coloca esse filho-da-puta de joelho, e deixa ele ficar um pouco sem ar, Cúrio precisar ficar um pouco sem ar para poder cantar”
“Nãoooo, dôtor, eu não sei de nadaaaa. Eu juro pela minha mãe mortinhaaa. Por Deusss, Jesusss, Virgem de Nazaréééé”

Sacola plástica da Yamada na cabeça. Ajoelhado, algemado com as mãos nas costas. Quase desfalecendo, Pereira tira a sacola.

“Ahhhhrummmmm... eu não sei de nadaaaa, dôtorrrr. Não seiii” – grita Cúrio desesperadamente.

O próprio Alves acerta um direto de esquerda em cima do nariz com a clara intenção de quebrá-lo.

“Cala boca, filho-da-puta, queres acordar a vizinhança. Eles já estão todos acordados, torcendo, só esperando a tua execução. Menos um vagabundo no mundo. Vou te dar mais uma chance, me diz quem foi, ou eu vou dar um tiro no meio da tua costa, e te jogar algemado nessa vala, vais morrer afogado, comendo merda”

“Já disse dôtor, eu não sei de nada” – chorando copiosamente, e se mijando na bermuda.

“Puta que pariu, o filho-da-puta tá se michando nas calças”

“HEHEHEHEHE”

“HEHEHEHEHE”

“É um merda mesmo”

“Pantoja, me dá tua arma, parece que ele é atleta olímpico de nado com algemas e um tiro nas costas”

“Não, dôtor, eu suplico, não fui eu”

Alves pega a arma, coloca na parte inferior das costas de Cúrio. Aponta com força, para que ele sinta o cano. Puxa o gatilho. O telefone do Pereira toca, e ele atende.

“Dôtor, larga esse filho-da-puta de merda. Almeida ligou dizendo que chegou um menor confessando ter matado o Almir”

“Largurento de merda”

“Largurento”

“Esse largurento tem costas largas. Levanta esse caralho, e voltemos para a delegacia”

Antes de entrar na viatura e pegar o Cúrio ajoelhado na beira da vala, Pereira e Pantoja chamaram Alves reservadamente e perguntaram:

“O senhor ia matar ele?”

“Apesar da vontade, não. Era apenas para ele confessar. O mijo foi o sinal que esperava. O sinal supremo de medo. Ele tava pronto para confessar. Foi salvo pela largura que tem. Vamos ver o que acontece lá na delegacia. Mas que esse cidadão tem culpa no cartório, a ele tem”

“É verdade, dôtor. Bora logo pra lá, quero ver quem é esse merdinha” – disse Pantoja.

“Bora logo” – concordou Pereira.

Cúrio ajoelhado, nunca agradeceu tanto a Deus, e pensou:

“Égua da largura”.

Suspirou de alívio, e continuou pensando:

“Fui eu quem matei esse filho-da-puta do Almir. Fui saber ontem que ele comia a minha mulher, aquela vagabunda a três anos, eu sabia que aquilo não valia o que o gato enterra. É preciso preservar a honra. Só a morte preserva a honra. Mas quem foi que me livrou? Só pode ter sido ela, ela sabia que eu ia matar ela. Essa filha-da-puta é esperta, e largurenta também”.

(Felipov)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Merda!







“Poooorra, Chumbinho, o que foi que aconteceu?? Só falta tu me dizer que não fizestes o serviço. Porra, estou atrasado pra encontrar a varejeira da Shirley. Hoje eu vou dar uma surra de pica naquela branquela... hehehe. Tive um dia cheio hoje. Muita onda pra resolver, inclusive o que te mandei fazer, mas pelo menos hoje chegou aquela breifa paraguaia, muito boa, vai dá pra passar por 25 contos aqui na boca. Mas depois te conto, estou com pressa. Te mandei porque és responsa, respondes. Bora, me diz, o que aconteceu?”

“Caraaalho, Porrudo, fizzz, fizzz meeeerda!”

“Como assimmm, poooorra, fez merda? Eu falei que era apenas pra alejar ele. Dava um tiro no meio da coluna e pronto. Simples e limpo. Mas fácil que matar um porco. Queria ver ele fudido, seco. Na cadeira de rodas. Aleijado. Era só isso, porque ele ia perder os parceiros dele do Guamá e da Condor. Quero que ele veja quem manda no Jurunas. Esse filho-da-puta tem que ver quem manda. Pra nunca mais me peitar. Um merda daquele. Porra, não te cantei a pedra que ele ia tá na rinha do João, levando aquele Galo dele, que parece ser um filho. Isso, era pra aleijar ele e matar o galo. O que foi, bora, caralho, desembucha?”

“Tá, tá. Calma, porrudo. Vou explicar. Eu fui lá na rinha do João. Ele tava lá, a briga do galo dele era a próxima. Ele tava preparando aquela galinha pra briga. O problema foi que ele me viu chegar. Não sei que diabo, parecia que ele sabia o que eu ia fazer. Ficou cabreiro. Me olhava toda hora. Ele tava com o galo, arrumando ele, essas porras. Quando ele marcou, já tava no cangote dele. Saquei o tresoitão. Do nada, um filho-da-puta apareceu, e me empurrou. Atirei, dois tiros. Um pegou no peito e o outro na cabeça, na testa. Caralho, nunca tinha visto aquilo, foi sangue e miolo pra tudo quanto é lado. Empreendi fuga, na hora. Isso foi a uma hora, dei um tempo, a poeira abaixar, e vim agora te dar o papo”

“Égua, Chumbinho, não acredito, puta que o pariu, fudestes tudo, porra”

“Eu sei, porrudo, mas na hora, a merda acabou acontecendo. Se eu não metesse fogo naquele leproso, era eu que ia rodar. Foi foda. Era ele, ou era eu. Foi ele”

“Eu só queria ver aquele leproso aleijado e seco, pilotando cadeira de roda. Ele ia perder as parcerias das bocas do Guamá e Condor, eu ia trazer esses camaradas pra formar com a gente. Os manos da Cidade Velha já são de casa. Agora, avacalhastes tudo. Porra, os caras vem com o caralho pra se vingar, tirar a desforra. Caralho, o que vou fazer pra evitar essa merda...”

“Olha, porrudo, dá essa idéia pro Caolho e pro Tripa, eu me dô com eles. Faço a ponte. Sei lá, como és labioso, eles podem querer firmar com a gente, eles sabem que és sanguenolento, é melhor te ter como aliado do que inimigo”

“huummmm... fiquei encaralhado agora. Vai lá na cozinha, pega uma água pra mim”

“Beleza”

Chumbinho foi cambaleante de medo, esperançoso de ter adiado o seu destino inevitável, depois da merda feita. Ouviu-se apenas dois tiros. O barulho do corpo e do copo d’água chocando-se contra o concreto da laje.

“Pato e Nescau levem o corpo do Chumbinho daqui, antes que ele comece a feder”

Porrudo entra no seu quarto, acende um cigarro.

“Porra, Chumbinho, ainda bem que sabias que sou sanguenolento, não queria, mas é assim que a bandidagem funciona. Merda resolvendo merda. Agora, vou ter que dar papo pra aqueles porras do Tripa e Caolho antes do tempo. Queria ver aquele filho-da-puta fudido e seco. Leprosos. Caralho, ainda tem a puta da Shirley, deixa eu ir logo, descolar essa foda. Merda!”

(Felipov) 

O banho




Ela foi tomar banho. Sei que o ato de banhar-se é profundamente individual, singular, peculiar, próprio de cada corpo no asseio de suas sujeiras. Os romanos transformaram a limpeza do corpo em um ato público, em suas termas dionisíacas, celebrando o corpo em comunidade, na civitas. A cultura cristã, por sua vez, converteu o corpo em pecado capital, templo do Senhor, deve ser enclausurado das corcunspiências deste mundo, encerrado na alcova. O corpo nu é um assunto privado. A beleza do corpo nu é salvaguardada. A origem do pudor da cultura ocidental.
Não resisti. Tinha que ver seu deslumbrante corpo nu sendo banhado, limpo, acariciado no ato de higiene. Entrei no banheiro, minha presença não foi percebida. O chuveiro fica separado do resto do banheiro por um box de vidro translúcido. Conseguia ver as curvas opacas do seu corpo. Fiquei mais excitado do que estava. Meu coração batia mais forte, sob a tensão da excitação e de ser descoberto. Suava com o delírio do desejo e com a inquietação do possível escândalo. Vi que estava entreaberta a porta de vidro.
Dei o primeiro passo. Tomei coragem e fui. Um, dois, três passos, calculados, sem ruídos, no chão meio liso dos vapores da água liquefeita, gotículas condensadas. Subitamente, ela coloca o braço para fora e pega no meu, foi um grande susto, quase caio no chão. “Vem, estava te esperando” – ela diz de modo suave e sedutor. Tiro a roupa apressadamente. Dois corpos nus se encontram no espaço privado – adentro ao box.
Ela me abraça, seu corpo molhado, perfumado e quente – muito quente. Ela pressiona seu corpo contra o meu, sinto seus seios no meu peito e a palma de suas mãos nas minhas costas – suas unhas me ferem. Ela morde a minha orelha. Sua mão desce pelo meu peito, numa trajetória guiada pelas unhas, alcançando a minha virilidade, movimenta-a carinhosamente.
Por minha vez, passo os meus dedos entre os seus cabelos, acariciando seu couro cabeludo, de maneira forte e suave. Minhas mãos descem, seguindo a curvatura das suas formosas carnes, chegando as nádegas, na qual faço o contorno de maneira delicada e marcada, a palma da minha mão coube de modo exata em cada um dos glúteos. Percebi imediatamente que ela gostou das carícias – respiração ofegante.
Rapidamente, ela ficou de costa, e encaixou-me, delicadamente com as mãos entre as suas pernas, levemente inclinada. A água quente escorria cadenciada entre o meu e o seu corpo. Seus cabelos medianos estavam presos. Senti minha dureza entrar lentamente em seu interior macio e quente. Agarrei seus ombros, projetando-me ritmadamente, chocando meu abdômen em suas nádegas, com o tilintar tranqüilo das águas.
Um deleite terapêutico. Tranqüilo, sereno, manso. Desloquei uma das minhas mãos para o lado, procurando a frente do seu corpo, nesse tactear, de olhos fechados, ouvindo o colidir dos nossos corpos copulantes, sinto o viçoso bico do seio excitado. Acaricio-o com o indicador e o polegar, e, ao mesmo tempo, apalpo a totalidade do seio com a ponta dos demais dedos. Faço isso nos dois seios. Depois, massageio os dois lados da costa de maneira forte, terna, relaxante. Percebo seu corpo relaxar e contrair. Relaxar e contrair.
Puxo seus cabelos devagar, e depois, com força, tencionando seu corpo contra o meu, de maneira que a violência dos movimentos, as dinâmicas dos corpos se fazem ouvir. Mantemo-nos de olhos fechados, sentido o momento. Sentindo-nos, um dentro do outro. Nossos desejos, fantasias, prazeres são mitigados. Foda, foda, foda, foda, foda. Gozo.
Cansados, entre braços. Corpo no corpo. Olhos nos olhos. Boca na boca. O tempo parou. A vida parou sob a água ardente do banho. Limpos das sujeiras passadas. Celebramos a dois o asseio dos corpos no box – nós, ocidentais.
(Felipov)



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pessoas



Milhares de crianças morrem todos os minutos que marcam a minha indiferença. Duas guerras mundiais – milhões de pessoas mortas. A Paranóia de uma eminente hecatombe nuclear em um terceiro conflito mundial no qual botões sejam acionados e resulte apenas em paus e pedras. As baratas reinarão. Talvez elas construam uma civilização mais humana. Pessoas que acreditam serem melhores do que as outras em razão da cor da pele, da nacionalidade, da religião, ou qualquer outra estupidez que elas julguem serem mais especiais que as outras. Pessoas jogadas pelas ruas, desvalidas, pedindo os trocados que tens nos bolsos, seres humanos que sobrevivem das sobras que não te servem mais. Pessoas que se consideram doutas, na sua mais pura ignorância, sabem as filosofias gregas, as antropologias francesa, a economia inglesa, a ciência da história, versam prolixamente sobre a literatura mundial, discutem densamente sobre física quântica, físico-química, sobre teorias da evolução, da origem da vida, enfim, todo o conhecimento acumulado com a finalidade única da mais soberba arrogância de se considerar melhor que o outro – mais retórica que conhecimento em si. Pessoas que não sabem ler nem escrever, que sabem apenas escrever o seu nome e votar, e ler o que o analfabetismo funcional permite. Pessoas que tem experiências acumuladas que lhe rendem o conhecimento sobre a vida que nenhuma universidade conserva. Pessoas que perderam um pai severo, a querida mãe, os irmãos companheiros. Pessoas que perderam dinheiro na rua, na festa, no jogo. Pessoas que sentem saudade, tristeza, alegria, felicidade. Pessoas que apenas não sentem nada – absolutamente nada. Pessoas cínicas, sacanas e canalhas. Pessoa que não dão a mínima. Pessoas que se importam. Pessoas que te medo de pessoas. Pessoas que não tem medo de pessoas. Pessoas que amam. Pessoas que são amadas. Pessoas que não amam. Pessoas que não são amadas. Pessoas que (sobre)vivem com um salário mínimo, sustentam cinco filhos, pagam água, luz, supermercado, e ainda tem tempo de ser feliz no fim do mês, comendo churrasco, bebendo cerveja e fumando Derby. Pessoas que matam. Pessoas que são mortas. Pessoas que roubam. Pessoas que são roubadas. No final, pessoas, apenas pessoas, nada mais que pessoas, é o que existe, pessoas boas, pessoas más, estúpidas, inteligentes, bonitas, feias, religiosas, descrentes, que acreditam em Deus, no Diabo, em Buda, em Jah, gordas, magras, esbeltas, gostosas, neuróticas, esquizofrênicas, enfim, são tão somente pessoas de carne, osso, estômago, sexo e idéias.
(Felipov)

sábado, 8 de outubro de 2011

Um século



“A morte é o não-estar”
(José Saramago)


“Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem
Penélopes tristes”

(Fragmento 172 – Ricardo Reis)
      
                                                                                                       
Cheiro de tabaco, tequila e vida gasta exalam das minhas roupas velhas, carcomidas, anacrônicas, compradas em brejôs. Completei, ontem, um século de vida. Plenos de saúde, vigor e vitalidade. Sem doenças, enfermidades, moléstias. Apenas uma unha encravada no pé que está me incomodando no momento, um pouco de insônia, algumas dívidas e vontade de foder.

Encerro em mim, o medo da vida eterna. Já travei três séculos de existência. Na época, do tempo das certezas, em que nasci era tão fácil morrer: doenças, guerras, tristezas. Família grande. Pai, Seu Antenor, lavrador. Mãe, Dona Marta, dona-de-casa. Casamento arranjado é diretamente proporcional a vida infeliz de momentos alegres. Meu nascimento, motivo de tal precipitado arranjo, foi um dos momentos felizes, segundo meus pais, que me deram o nome de Idalícia – algo que duvido muito, mesmo sendo minha vida.

Sou a mais velha de três irmãos e três irmãs. Sempre detestei minhas irmãs, e mantive relações razoáveis com meus irmãos, de modo indireto, apenas suas vidas me interessavam, em razão de convivermos sob o mesmo teto – tão somente. Agenor, o que veio depois de mim, era muito falante, inteligente, prático e inquieto. Gerson, que o seguiu, mais quieto, lacônico e sonhador. O caçula, José, o zezinho, o mais moleque, engraçado e brincalhão de todos, sempre tinha um anedota e uma piada na ponta da língua. Todos seguiram o caminho do casamento precoce herdado dos pais, pouca escolaridade, trabalho braçal e formação familiar. Menos eu.

Fui a única que procurou a senda dos estudos, da vida independente, sem família, sem satisfações, sem compromissos. Antes disso, conheci, no início da adolescência, um dos meus primeiros vícios: o cigarro. Seu Antenor, quando tinha preguiça de bolar seu tabacão, ensinou-me, na condição de primogênita, já que Deus não lhe tinha dado filho homem por primeiro, a peso de muita bofetada, a fazer o seu cigarrinho – eu cuidadosamente filetava o tabaco, enrolava na seda e acendia. Aprendi a tragar e ter gosto pelo sabor do tabaco. A combinação entre álcool e tabaco foi automática. Bebia cachaça escondida.

Dona Marta sempre foi abstêmia, tinha apenas dois vícios: trepar e rezar – nessa ordem. No entanto, meu pai foi o único homem de sua vida. Do Gerson, as mulheres – os tímidos e calados tem um imã para as mulheres. Agenor era o trabalho. E zezinho, a jogatina. Nelvinha, a mais faceira, era mulher do Zezinho – sem vergonha que nem ele. Joana, do Gerson – calma e obediente, tolerava as traições do marido. E Auxiliadora, do Agenor – diligente, empreendedora e metódica, um feito para o outro.

A primeira vez que vi a morte foi na escola. A sua vítima fora Dona Idalina, a professora de Português do primário. Lembro das pilhérias dos meus colegas de turma: “Idalícia é filha da tia Idalina”. Não gostava dela, e muito menos de ser relacionada com ela. Era baixinha, truncada, cabelo curto, enrolado e castanho. Roupas de conjunto, combinando saia e blazer, óculos com grossas lentes, usava um rosário no peito, e fumava feito uma condenada. Gostava de sentir o cheiro de cigarro impregnado em suas vestimentas - era a única coisa que gostava nela.

Em uma segunda-feira, suas aulas eram segundas e quartas-feiras, quando ela tentava nos ensinar a relação entre sujeito e predicado, tinha tanta dificuldade de ensinar, mal sabia para ela, no momento no qual escrevi uma frase no quadro para exemplificar a sua explicação, escrevendo com um pedaço de giz, sua roupa já toda suja de pó branco, ela tomba, subitamente, para o lado, próximo a sua mesa. Ataque cardíaco fulminante, não teve tempo nem de dizer nada. Tenho a lembrança nítida do seu corpo jazendo diante dos alunos, nos dando consciência, em nossas mentes infantis, da brevidade da vida. Foi o meu primeiro contato com a morte - tinha dez anos.

Depois, a morte tocou minha família. Um câncer de pulmão estava corroendo seus últimos dias de vida do meu pai. Presenciei todo o seu sofrimento, seu corpo ficar minguado à pele e osso, a tosse que o fazia perder o fôlego, e às vezes escarrado com sangue. Eu fiz questão de cuidar dele, de sentir toda a sua angústia, de compartilhar, como se isso fosse uma forma de lhe aliviar. O que mais me atormentava era quando ele pedia para eu fazer seu tabacão, eu não fazia e não parava de fumar. Ele expiou me pedindo obrigado pelos cigarros e perdão pelos bofetões. A morte tinha chegado definitivamente a minha vida.

Não demorou muito, foi a vez da minha mãe. Ela não agüentou viver sem o Seu Antenor. Chorava dia e noite. Não dormia. Não comia. Não vivia mais. Sua agonia não durou muito, depois de um mês, fazíamos seu velório. Numa manhã de domingo, quando fui chamá-la, ela sempre me pedia para acordá-la, para não perder a missa dominical, ela estava toda embrulhada, com um semblante sereno e cheiro moribundo. Toquei seu pescoço e testa, estavam gélidos.

Orfã, morar só foi meu destino imediato. Sozinha como me mantive até hoje. Nesses tempos idos, ainda morava no sítio. Depois das mortes, eu e meus inúmeros irmãos vendemos esse patrimônio, e cada um seguiu sua vida. Fui para a capital, começar a vida. Trabalhando e estudando, consegui me formar a duras penas. Muitas penas. Sou jornalista. Minha primeira conquista foi comprar um apartamento, aliás, meu único bem. Os anos foram se passando. A vida foi passando. A vida foi seguindo. Sempre só.

Tive apenas dois amores na vida: Tulipa e Paco. Ela me ensinou a amar as mulheres. Ele me fez ver que todos os homens não são iguais. Alguns prestam, mesmo que por um delimitado período de tempo – eles têm data de validade. No fim, os meus amores, se conheceram, se casaram, e foram uma família alegre e feliz. Há uns vinte anos atrás os dois morreram em um acidente de carro. Chorei três dias sem parar. Os dois únicos amores que tive, se foram, juntos.

A notícia da morte dos meus irmãos/irmãs veio pelo correio. As que mais me tocaram, foram as dos meus irmãos. Zezinho foi assassinado por dívidas de jogo. Joana matou Gerson – a sua paciência estancou. Agenor foi morto por um funcionário do seu gigantesco supermercado – todos os capitalistas deveriam ter esse fim. Meus irmãos foram vítimas de homicídio, com algum merecimento. Seguiu a morte de suas esposas. A morte de pessoas conhecidas. Todos a minha volta foram morrendo. No começo, via com indiferença. Porém, com o tempo, sentia como se fosse comigo. Tinha consciência da morte eminente – a morte que ainda não veio. Depois de tantas décadas, aguardo, ansiosamente, na resignação própria dos anos, na acumulação de experiências, expectativas e frustrações, o não-estar em vida, o parar para o tempo, o adentrar ao Nada. Sou uma Penélope triste esperando a conclusão da minha história que já marca um século.

(Felipov)