segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Superação!




Não quero passar pelas ruas e vislumbrar a miséria
Engendrada pela lógica D-M-D’
Lógica esta que degrada as relações humanas
Estimulando a acumulação em detrimento da eqüidade

Acumulação?
Acumulação: elogio da propriedade privada.
Em tempos de fetichismo da mercadoria
A felicidade que não esta ligada a
mercadoria é julgada com menor consideração: fora de moda.
Fetichismo e reificação estão na ordem do dia.

Então, em tal contexto, surgi à questão:
como superar tal estrutura?
Somente pela tomada da consciência da mesma
(Onde a luta de classes tem arena privilegiada, como outrora disse um sardo)
Que no senso comum é tomada como natural - letargicamente.
E pelo vislumbre da possibilidade de superação

Mobilizar os agentes da transformação:
pessoas simples com grandes aspirações:
uma existência mais justa e digna de ser vivida
Forjar com tais pretensões a construção de outro mundo
Onde o extraordinário seja cotidiano.

(Felipov)

Piada do XIX




Um dia desses
lendo Lauro Sodré
e suas críticas ao catolicismo,
metafísica e teologia
Ele satiriza dizendo
que na lógica matemática
1+1+1 = 3
Enquanto que a teológica
1+1+1= 1
Eu ri

(Felipov)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Clotilde




Quando levantei, senti um cheiro forte de rosas e suor. Cheiro de rosas dos amores trágicos. Era o seu cheiro, depois de uma noite intensa de amor. Havia, no seu corpo nu, um cheiro natural de rosas – ela estava deitada de lado, em posição fetal, deixando-se ver apenas as suas costas e nádegas desnudas, com as pernas cobertas pelo lençol de linho branco que havia lhe presenteado. Cheiro onírico, denso e purificador – sobrenatural, diria. Ela roubava o cheiro das rosas – contrariando Cartola. Fiquei impressionado. Clotilde sempre fora rude, fechada, e pouco afeita a carinhos, calada, tacirtuna – sobretudo, independente e autônoma. Aprecio pessoas assim. Comunicava-se através do seu olhar dissimulado e oblíquo, e gestos leves e expressivos – mas fazia seu trabalho com destreza, era profissional. Porém, nesta noite, ela me mostrou a sua verdadeira face: a face do amor.

Era seu cliente fiel – no entanto, não gostava que ela me visse assim; era apenas um amigo que a amava deveras. Visitava-a todas as semanas – ou ela me visitava, revezávamos. Há uns seis meses. Tinha vinte e cinco primaveras de vida. Formosa, farta em carnes, cabelos ondulados, tez alva, com mãos e pés delicados, era pequenina e frágil. Naturalmente bela. Não precisava de maquiagem ou quaisquer outros artifícios estéticos para ficar bonita. Sua beleza, simplesmente, irradiava felicidade e ternura.

Contudo, era triste. Havia me contado de sua vida. Nascera em berço de ouro, pais bem-sucedidos, mãe empresária e pai advogado. Sabia falar francês, italiano e alemão – treinava meus rudimentos de francês e alemão com ela. Tocava piano e clarinete – ela tocava piano muito melhor que eu, às vezes se perdia tocando no piano de casa, de modinhas, blues à Bach, Chopin era sua especialidade; adorava quando tocava “la polonaise”, era a sua música. História e literatura, música e cinema eram suas paixões, desde a tenra idade. Mas, ainda na infância, um evento fatídico mudou sua vida: na décima primavera, o irmão do seu pai abusou de sua inocência. Gostou tanto, que se tornou ninfomaníaca. E acompanhante, sua profissão. Atendia em casa, ou residência. Cobrava caro – tinha consciência do refinamento dos seus serviços. Valia cada centavo.

Chamo-me Ubaldo. 85 anos. Viúvo há vinte anos. Não tenho filhos. Professor universitário: filosofia clássica alemã. Comunista não-praticante. Vivo no centro da cidade, em um apartamento gigante, abarrotado de livros, vinis e um piano. Moro só, com o meu gato branco chamado Che. Rotina: dar aula, tocar piano, ler, ouvir música, fumar charuto e sair com alguns amigos dos tempos do partido. Essa vida pacata modificou-se quando falei com um desses amigos que queria uma acompanhante, com uma especificidade: bela e inteligente. Constantino me deu o cartão de Clotilde. Fiquei muito curioso e marquei logo um encontro – na verdade, uma entrevista, queria mesmo ver ser era linda e inteligente.

A minha frieza senil ficou abalada ao vê-la. Uma paixão avassaladora brotou no meu coração seco e árido. Senti-me um infante apaixonado, fiquei nervoso, coração acelerado, mãos suadas – fazia décadas que não sentia isso. E isso tudo ao simples toque dos meus olhos naquele ser mitológico, que não pertencia esse plano mortal e vil. Sóbria, séria e lacônica, me cumprimentou e se apresentou. Fiquei intimidado, com a primeira impressão. Almoçamos juntos. Conversamos a tarde inteira. Tomamos algumas caipirinhas – ela adorava. Fiquei mais impressionado com os conhecimentos dela. Era perfeita. Quando lhe disse que era professor de filosofia, ela se empolgou, e foi falando de suas preferências e críticas. E a conversa transcorreu naturalmente, como se nos conhecêssemos há muito tempo.

Era uma idealista convicta, leitora voraz de Hegel – profissionalmente, sou estudioso de Hegel, politicamente marxista. Ela falou que não conhecia muito do barbudo chato metido a mudar o mundo – ri da sua ironia reacionária. Música clássica, Villa-Lobos, sambas de Adorinan Barbosa, Cartola, Noel, Chico Buarque, Blues e Ska faziam parte do seu repertório no piano. Em literatura: Jorge Amado, García Marquez, Mann, Joyce e Tolstoi. Eu apenas fazia uma pergunta simples e ela respondia com uma graça, leveza, gestual e olhares, de um conteúdo denso e maduro. Tinha até me esquecido do propósito do nosso encontro. Fiz uma última pergunta: “Por qual razão estais nessa vida??”. Ela respondeu, seca e sacanamente: “Gosto muito de trepar”. A única conclusão que tirei foi: ela tinha vindo de Lesbos, e fora discípula de Safo.

Depois da conversa, fomos para meu apartamento. Ela ficou feliz de ver o piano e tocou duas músicas – as quais não lembro agora. Estava tão encantado. Fomos para o quarto e tivemos uma noite épica, que terminou com ela dizendo: “me destes uma canseira seu velho viril” – fiquei extasiado. Daí em diante, toda a semana nos encontrávamos. Um encontro melhor que o outro. Não foram poucas as vezes que pedi para ela morar comigo e deixar essa vida. Que era a minha vida. O amor de uma vida. O meu amor da velhice. Todavia, ela se irritava e dizia que se continuasse, nunca mais iria me ver. Então, calava. Isso foi até ontem, quando ela demonstrou o seu amor. O seu cheiro habitual de rosas estava mais forte. E ela disse-me, ao pé do ouvido, quando os nossos corpos estavam moribundos e suados de tanto prazer: “sou tua Safo”. Nunca tinha sentido aquela alegria na vida, pela primeira vez sentia o que era felicidade. Entretanto, fora efêmero.

Estou vindo agora do seu enterro. Foi brutalmente estrupada e morta com dois tiros no peito, em seu apartamento, quando arrumava seus pertences para mudar para o meu. Ao seu lado, estava o corpo de Gervásio, com um tiro na boca. Ele era um dos meus camaradas do partido. Soube depois que ele era perdidamente apaixonado por ela. E não agüentou saber que ia morar comigo – Constantino havia lhe dito. Quando vi a terra sendo jogada em cima do ataúde, não tinha mais lágrimas, elas já haviam secado, apenas meu coração gritava em desespero. Da sepultura fechada exalava o cheiro de rosas dos amores trágicos – agora que compreendi que era um aviso. Estou em casa e acabei de tocar “la polonaise” em sua homenagem. Minha querida Clotilde voltou para a sua ilha no mar Egeu. Acabei de girar a ampulheta, espero a minha hora.

(Felipov)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cãozinho





Vou-me embora
Deixo a minha vida
Uma antiga vida
Uma vida sem mim
Esse calor, violência, e
trânsito que só me
fazem definhar

Vou-me embora
Às minhas costas
ficam dores, sonhos
Compromissos
Obrigações
Problemas
Paixões
Amores
Amizades, sobretudo
Preciso mudar
mudar de mim,
mudar dos outros,
mudar de vida.

Vou-me embora
O mar cubano me espera
com o seu calor e
as brisas geladas
ao som de ska
As montanhas andinas
me aguardam
para as viagens de
motocicleta
O nordeste é minha casa
com seu sotaque e melodia
de Alceu e companhia

Vou-me embora
Sem remorso
Sem resignações
Sinto apenas: saudades
Um saudosismo antecipado
A falta, a ausência antecipada
Contudo, inevitavelmente,
esse cão, cãozinho
vai no meu coração
alentando e alegrando
sua tristeza da partida

(Felipov)

Ps: esses versinhos tortos foram feitos em homenagem a Rafaela e Andressa - dois cãeszinhos do meu coração.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O espelho da branca de neve




“Párias na ambição de parecer grande.
Monte de tijolos com pretensões a casa”
(Ultimatum – Álvaro de Campos – 1917)


Conhecia-o há pouco tempo – ainda bem. Teve o fim que merecia. Devia ter uns quarenta anos – no entanto, aparentava ser muito mais velho. Usava um terno bem cortado, apesar de ser visivelmente de segunda mão. Sapatos engraxados, para dar um ar de ordem e sobriedade – bem como disfarçar, pois são igualmente de segunda mão. Cabelo e bigode bem aparados, e muito grisalhos – denunciavam o evidente avançar da velhice, embora tenha pouca idade. Branco de cabelos ondulados, sempre impecavelmente penteados. Alto e magro. Postura ereta e voz empostada. Era naturalmente troçador e desdenhador de qualquer ao seu lado. Detalhista e inteligente, ele procurava defeitos em tudo. Suas críticas eram feitas sempre com tom de auto-promoção. Um jeito arrogante e prepotente que conseguia irritar a todos – óbvio, que todos calam. Gracindo era seu nome.

Trabalhávamos na mesma repartição pública: um cartório. O cartório Sodré. Ele era meu supervisor. Chamo-me Gonçalo. Trabalho no setor de autenticação de propriedade – uma vez regularizada, ela tem que ser autenticada, enfim, pilhérias da burocracia. Vivo dessas pilhérias. É simples: eu carimbava e ele assinava. Carimbar e assinar: o simples que atrapalha a vida de todos. Quer dizer, nem todos: apenas os proprietários. Tudo era muito perfeito na vida do Gracindo. Ele tinha uma linda família, com mulher e filhos que lhe amavam, e um emprego razoável, com subordinados.

Contudo, tinha uma vontade incessante de demonstrar poder. Em tudo. Que ele mandava e desmandava. E que tudo dependia dele. Centralizava. Verticalizava. Gostava de manter o controle. Reafirmava as hierarquias. Ele era o melhor, e tudo o que fazia era igualmente melhor. Mantinha seu poder através da lógica dos favores: o velho “toma lá dá cá”. A base do seu poder eram bajuladores e puxa-sacos. Era esquizofrênico. Egocêntrico. Vingativo. Dissimulado. Que não suportava ser contrariado. Nunca estava errado. Sempre, incorrigivelmente, certo. O seu apelido tácito na repartição era “branca de neve” – em razão da bruxa da branca de neve e o seu dito “espelho, espelho meu existe alguém melhor do que eu”. Era apenas um pária que sempre fez questão de humilhar os outros. Assédio Moral. Promessas de retaliação. Exercia seu poder da forma mais espúria e impune. Era a maldade travestida de pessoa honrada e séria.

Entretanto, um dia a justiça chegou, com o seu castigo e punição. Roberval era meu estagiário. Recém-chegado a repartição, ele organizava as fotocópias dos documentos que eu carimbava, e depois encaminhava para serem assinados. Um dia, Gracindo humilhou-o na presença de toda a repartição. Humilhou-o mortalmente – apenas com o prazer de reafirmar hierarquias. No dia seguinte, Roberval, enfurecido, com sangue no olho, deu dois tiros no peito dele, na frente de todo mundo na repartição. E disse, depois dos disparos: “Ele precisava respeitar os outros. Pena que não aprendeu isso em vida”. Caro leitor, sabe aquela venha máxima: até que ele encontre um doido pela frente. Gracindo achou. O tijolo que se arrogava casa, virou pó.

(Felipov)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Belém de outrora





“Somos muito mais a terra onde nascemos
[e onde fomos criados] do que imaginamos”.
(José Saramago)


Chamo-me Sarah. Sou paraense. Tive uma infância feliz, tipicamente belenense. Em uma Belém de outrora que, infelizmente, não existe mais. Existe apenas nas minhas lembranças infantis. Lembranças felizes.

Um dia desses, marcados pelo tédio e a monotonia, estava limpando o meu quarto. Ouvia um pouco de Alceu Valença e Zé Ramalho para me animar – faxina é muito chata, mas necessário; como muitas coisas na vida. Em meio à arrumação, achei alguns vinis velhos ocupando um canto do quarto. Eram vinis de bregas antigos dos meus pais que não deixei jogarem fora – sempre fui de guardar coisas, mesmo que não gostasse; sempre acreditei que carregavam alguma coisa de nós. Felizmente, estava certa.

Marcelo Wal e Roberto Villar. Quando vi esses nomes, veio em minha mente os primeiros feixes de lembrança da minha infância. Não resisti, liguei o toca-disco e ouvi os vinis. A música me deixou, a um só tempo, a despeito da sua animação, ritmo cadenciado e letras piegas, saudosa e nostálgica. Eu revia, olhando aqueles encartes dos discos, os dias de domingo ensolarados, reunidos em família, com todos os parentes em casa, se confraternizando entorno do churrasco, ao som do velho brega. O cheiro de churrasco, cerpa e farrofa vinham na minha memória infante. Meus tios dançando freneticamente, enquanto meu pai tomava conta do churrasco e minha mãe da comida. Eu, meus irmãos e primos ficávamos revezando às vezes de jogar no super Nintendo, enquanto o almoço não ficava pronto – não raras vezes, acontecia brigas, porque um queria jogar mais que o outro. Crianças: são iguais, em suas mal-criações, em qualquer tempo.

E outras lembranças foram se juntando a estas, as quais relacionadas a iguais domingos na Praça Batista Campos, quando meus pais me levavam com os meus irmãos para brincar de futebol e tomar sorvete – bem como, pira-esconde, pira-marromba, e malinar com as crianças menores. Na Praça da República não era diferente, só apenas tinha mais gente, quer dizer, mais crianças para brincar – e crianças maiores que malinavam com a gente. Muitas vezes me perdi, e fui devidamente castigada por isso: não podia assistir o seriado “Chaves” – meus pais eram cruéis, sabiam como castigar. Ou quando íamos ao Bosque Rodrigues Alves, sempre ganhava um brinquedinho de miriti – adorava aqueles brinquedos. Andava descalça pela areia do bosque, lendo todas as plaquinhas das plantas, procurando decorar seus vários nomes que nem entendia o significado. Tirei fotos com todos os animais – gostava mais das araras e outras aves, a pesar do mal-cheiro, que sempre me embrulhava o estômago.

É indelével que os domingos foram dias muito especiais na minha infância. Os RexPa’s merecem uma capítulo a parte. Minha família sempre foi Paysandu, e eu, era remista – a celeuma estava posta. Quando era dia de clássico, geralmente, nos domingos, as provocações já vinham na semana, cada um impunha sua camisa, bandeira, o que fosse e torcia por seu time. Ouvidos atentos, grudados em seus respectivos radinhos de pilha – era incrível aquelas narrativas hiperbólicas, quase toda hora era perigo de gol. O momento mais aguardado: o seu time sagrar-se vencedor. Quando o Remo ganhava, eu encarnava em todo mundo; mas quando o contrário acontecia, eu ficava mufina de tanta encarnação. Não raras vezes pensei em mudar de time. No entanto, era muito azulina para fazer uma tolice dessas. Uma vez remista, sempre remista.

Lembro-me do cheiro da maniçoba, do tacacá, vatapá e pato no tucupi nos tempos do Círio – parece que esses cheiros tomavam uma conotação sobrenatural. O açaí fresquinho acompanhando aquela sarda assada na brasa – só eu e minha mãe gostávamos de sarda, e nos deliciávamos; caro leitor, se ainda não provou, não sabe o que perde. Quando ela trazia sarda do Ver-o-Peso, já sabia que íamos comer só nos duas – minha mãe sempre foi mesquinha com peixe, ela gostava de comer sozinha; não por maldade, mas pelo simples prazer. E eu acompanhava, ficava só nos duas, comendo uma peça gigante de sarda com fartas colheradas de açaí – ela me acostumou a comer sem açúcar, a moda do interior, ou como ela dizia: como bom tapuio. Não era diferente com o camarão, com o caranguejo. O friozinho do vento que trazia a chuva nos fins de tarde – a tão merecida chuva, depois do dia inteiro de calor.
Aquele cheiro de chuva inconfundível de Belém.

A Santa Maria de Belém do Grão-Pará que só vive nas minhas memórias infantis. Somos a imagem e semelhança da terra na qual nascemos e nos criamos, mas do que podemos imaginar – mais uma vez, como sempre, Saramago tinha razão. Belém vive em nós, e nós vivemos em Belém. Esta terra rica, linda e injustiçada. De um povo cortez, trabalhador e, igualmente, injustiçado.

(Felipov)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Solução e reparação




Tenho observado a vida alhures e não gosto do que vejo. Calor, violência e corrupção. Empáfia, egoísmo e ingratidão. Medo, indiferença e exclusão. Tristeza, alegria e diversão. Chuva, alagamento e discussão. Botecos, conversas e insatisfação. Clarisse tem reclamado com seu tom e razão peculiar da inflamação e do salário. Digo-lhe para ler Marx e encontrar uma explicação. Ou procurar um emprego melhor e ficar sem explicação. Ela me pede uma solução. E diz que ler Marx não vai pagar as contas. Detesto pessoas pouco teóricas e pragmáticas – na verdade, é preguiça de ler e pensar. E digo: não sou químico. Chama-me, com carinho, de tratante. Pergunto: cadê o senso de humor. Apenas gritou com tom colérico: na puta que te pariu – eu respeito pessoas que sabem xingar. Ri, vi e respondi: eu sei que mamãe é engraçada – ela não gosta de minha genitora, diz que ela é uma megera. Ela riu, afagou-me o cabelo, beijou-me a barba, disse para cortar ambos, óbvio que tinha que reclamar, e foi embora – procurar um novo emprego. Tenho que me reparar. Meus parcos amigos têm reclamado igualmente – tenho um problema sério em manter amizades. Suas reclamações são por motivos diversos, é verdade, e legítimos. Da minha ausência presente e da minha saudosa chatice que tanto lhes divertem. Relapso é no mínimo o que tenho sido com eles – mas, eu gosto de ser relapso. Tenho que me reparar. Por sua vez, Dona Clotilde, minha mãe, não me escreve mais – desistiu de mim e, pelo visto, perdeu o senso de humor. Azar o dela, rir é libertador. Meu pai morreu cedo – o seu Euclides. Meus irmãos, José e Francisco, seguiram na vida religiosa – um é padre e o outro é rabino. Tenho que me reparar. Perdi o emprego ontem e estou feliz hoje, com fome, sono e uma unha encravada. Duas moedas no bolso e uma idéia fixa. Que me fez errar por toda a cidade. A idéia fixa era: como faço uma solução de reparação. Não achei resposta. Acredito que o jeito vai ser procurar um químico que entenda de auto-ajuda.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A disputa




João era pedreiro, alcoólatra,
bom de cartas e sinuca
honesto e altruísta, morria pela
família e os amigos
tinha dois problemas: passional e
acreditava piamente nas pessoas.
Maria, uma excelente costureira
vaidosa, bonita e esbelta, luxuriosa
com uma qualidade: a persuasão.
Torquato, um grande malandro
que não trabalhava, vivia de bico,
samba e pequenos trambiques.
João era casado com Maria.
Maria era amante de Torquato.
Torquato era camarada de João.
Um dia voltando do trabalho
João trazia um presente
para Maria: rosas e chocolate.
Mas quem ele vê atravessando a
praça de mãos dadas aos beijos:
Torquato e Maria.
Sangue e lágrimas
encheram os olhos de João.
Ele usava uma faca para
capinar o mato e abrir cimento.
Correu em direção do casal.
Quando o viram
Torquato viu a faca
na mão do João e
puxou a navalha
Depois da violenta
luta corporal
caiu a navalha limpa.
E ao lado dela, o Torquato
Maria, degolada, do lado
da navalha.
A fúria de João prevaleceu
A sua ira venceu a disputa
Retornou ao lar.
Com a faca lavada pela honra,
as rosas e os chocolates.

(Felipov)

sábado, 13 de novembro de 2010

Seu Dalcídio




Esta é a história de um homem bom. Esta é a história do Seu Dalcídio. Alguém que amou demais. Amou demasiadamente. E não teve um final feliz. Seu nome completo: Dalcídio Guilhermino Almeida. 40 anos. Português do Porto. Morava em Belém há uns 30 anos. Herdou o negócio da família: uma padaria. Com um nome bem peculiar: “Lisboa”. Tinha uma bela barba e um início de calvície. Usava suspensórios, camisa de linho branca e calça social marrom, que parecia uniforme de garçom de boteco da década de 1970 – só faltava o raiban e as costeletas. Um sentimentalismo lusitano a la “fado tropical” – uma de suas músicas favoritas, como sempre comentava na roda de música no bar da esquina, o conhecidíssimo “Bar do pirento”.

Tomava todos os dias uma taça de vinho do porto – como um bom português. Sua irmã, o único parente vivo, pois seus pais já eram falecidos, lhe enviava todos os meses. Dona Violeta era casada com um bem-sucedido corretor de imóveis, o Joaquim, e tinha dois filhos: Gumercindo e Mariana. Dalcídio morria pelos sobrinhos, todos os anos, um dos dois passava uma temporada com ele no Brasil. Ele amava a família, apesar de não ter uma boa relação com seu cunhado – por conta de dívidas. Amava sua irmã e os sobrinhos – era solteiro convicto. Dalcídio era um homem simples. Um português muito brasileiro. Levava uma vida pacata, sua principal ocupação era cuidar da padaria. Torcia pela Tuna – obviamente, não era uma pessoa muito feliz com o futebol. Gostava de jogar no bicho. E jogar conversa fora no bar nos domingos à tarde.

Contudo, sua vida mudou. Julieta mudou sua vida. Era uma moça recém-chegada ao bairro, de uns 25 anos. Olhos verdes, mais alva que a neve, esbelta e formosa. Cabelos crespos e um estilo de antropóloga. Morava só, perto da padaria. Havia se mudado há duas semanas. Iria cursar História, queria pesquisar período colonial na Amazônia – apesar de todas as discussões atuais, era uma caiopradiana convicta. Mineira de Belo Horizonte. Gostou de Belém. Mas detestou o calor, a violência e o trânsito. Em certa manhã, ela foi comprar pão de gergelim, seu favorito. Dalcídio se apaixonou avassaladoramente. “Veja dois pães de gergelim, quentes, por favor” – ela pediu de forma solicita e sorridente. Ele que estava distraído dando instruções a um funcionário, quando ouviu aquela voz doce e forte, ficou paralisado quando a viu. “Cinqüenta centavos, moça” – disse com a voz embargada pela emoção. Ela prontamente lhe deu o dinheiro e recebeu seus pães quentes.

Todos os dias, Julieta ia religiosamente comprar pão na padaria de Dalcídio. Com o convívio começaram as conversas. Dalcídio procurava qualquer desculpa para iniciar uma prosa. Elas se intensificaram no dia em que ele viu um livro do Pessoa na mão dela – se identificava com Álvaro de Campos. Ele era vidrado em literatura – sobretudo, obviamente, a portuguesa; mas gostava da brasileira. Era a afinidade que ele precisava. As conversas foram se tornando mais densas e interessantes. Foi, a partir desse momento, que Julieta reparou de verdade em Dalcídio. E percebeu que ele era apenas um dono de padaria. Descobriu um homem inteligente e simples. Começou a chamá-lo de Guilhermino – gostava do segundo nome dele, e já era um sinal de intimidade. Não demorou muito para que o romance se estabelecesse – por iniciativa dela, a timidez de Dalcídio, sua inteligência e simplicidade haviam lhe conquistado.
No final da tarde, de uma segunda-feira, ela se sentou na padaria e pediu dois cafés. Dalcídio achou estranho. Quando chegou com as duas xícaras de café, ela pediu que ele sentasse e lhe acompanhasse. Começaram a conversar. A cada gole de café, a conversa foi se acalorando. As discordâncias os aproximavam. A inteligência dos argumentos os encantavam. A ironia e sarcasmo das respostas estabeleciam o contato. Depois do último gole de café de Dalcídio, Julieta beija-o subitamente. Ele fica surpreso com a correspondência. Contentamento e sublimação invadiram Dalcídio. O amor encontrou lugar no seu árido coração. Dalcídio iniciava-se pela senda do amor – nunca havia amado na vida.

Foram dois anos da mais completa felicidade ao lado de Julieta. Ele conheceu Minas e se encantou – viciou-se em pão de queijo. Ela visitou Portugal inteiro e não queria mais voltar – se tornou apreciadora inconteste de fado, vinho do porto e bacalhau. Ora ela dormia na casa dele, ora ele dormia na casa dela. Ela aprendeu a fazer o pão de gergelim que tanto gostava – que Dalcídio dizia, em tom de troça, ser pão de passarinho. Do seu passarinho. E ele já era um mestre na arte de fazer pão de queijo – leia-se: pão de queijo a moda mineira; porque, cá entre nós: seria muito estranho um dono de padaria não saber fazer pão de queijo. O apelido dela era “Iaiá” – por conta de uma música que ela gostava, de uma banda que ele não conhecia. A propósito: ele aprendeu mais de música e literatura brasileira. Ela apenas o chamava de “Guilhermino”. Ele adorava o jeito com qual ela fazia carinho em sua barba grisalha, um carinho com suas mãos tão macias e o seu rosto. Roçava delicadamente o seu rosto na barba dele. Ele sentia o seu cheiro: perfume de camomila. A forma como as mãos rústicas dele afagavam seus rebeldes cabelos crespos lhe traziam um sentimento de segurança e paz plenos. Dalcídio ganhava o dia quando via os lindos olhos verdes de Julieta sorrindo timidamente em sua direção.

As diferenças e distâncias mediavam à relação. Julieta tinha seus defeitos e qualidades. Dalcídio não era diferente. Contudo, o ciúme de Dalcídio foi o início do fim. O seu ciúme foi a origem da ruína. Não era algo normal. Nada daquela anedota popular que diz “o ciúme é o perfume do amor”. Nada disso. Dalcídio tinha um ciúme e desconfiança quase que patológico por Julieta. No começo, ela compreendia. Ela o amava. Contudo, com o tempo, a situação tornou-se insustentável. O encanto dissipou-se. O amor arrefeceu-se. Estava sufocada. Ela havia mudado por ele. Agora, estava mudando dele. O interesse por outras pessoas tornou-se inevitável. Chegou-se ao ponto que qualquer um era melhor que Dalcídio. Qualquer um era mais suportável que ele. As brigas intensificaram-se. As conversas ficaram curtas. Os silêncios dizendo tudo. A situação estava insustentável. E Dalcídio achava que podia levar a situação, que um dia ele iria melhorar. Ledo engano.

Em uma manhã de segunda-feira, Julieta apareceu na porta da padaria. Estava com o semblante sério e decidido. E ao seu lado, uma mala. Avisou-o pessoalmente que ia embora – achava que ao menos, por conta de tudo que haviam vivido, era mais digno a se fazer. Foi embora com o seu professor de Filosofia Política, chamado Péricles Carneiro – também mineiro, estavam voltando para Minas; ele era de Itabira. Ela disse: “Adeus, Dalcídio. Fique bem. E sejas feliz”. Resignado e com o rosto banhado em lágrimas, ele apenas acenou positivamente com a cabeça. Sua garganta estava tão embargada que não sairia o menor som audível. Ela partiu. Ele bebeu todo o seu estoque de vinho. Não conseguiu mais trabalhar, conversar. Ele não conseguiu mais viver. Depois da última garrafa de vinho, foi dormi. E não acordou mais. Dalcídio morreu de tristeza. Dalcídio morreu com o seu amor, ciúme e tristeza.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Jurandir




Já estou vendo os narizes torcidos dos românticos ao lerem esse texto. Ou daqueles defensores da felicidade só existe a dois. Ou que é impossível ser feliz sozinho. Primeiro: o que seria a felicidade? E se ela existe, ou se pode ser alcançada. E qual seria o seu sentido individual ou social. Já estou com a minha péssima mania: procurar explicação pra tudo. Enfim, não é esse o propósito destas tortas linhas.

Queria apenas compartilhar uma constatação óbvia e, por ser evidente, nem sempre é vista: a solidão é sublime.

Meu nome é Jurandir. Tenho 30 anos. Sou funcionário público – inspetor da alfândega; isso mesmo: fiscalizo a vida alheia. Solteiro – obviamente. Moro só – óbvio novamente. Não tenho amigos – idem. Portanto, sou só – como deu para perceber. O que ainda dá sentido para a minha existência é ler, escrever e ouvir música. Cinema e café. No momento, estou fazendo um curso de alemão por correspondência. Tentando acabar uma poesia sobre o amor. Procuro algum lugar para consertar meu toca-vinil – sou colecionar fanático. Estou procurando a relíquia “Matança de porco” do Som Imaginário – quem estiver vendendo, sou um potencial comprador. Parando de fumar. Muito puto por ter comprado um livro de crônicas do Saramago num sebo desses da vida, bem barato, isso mesmo, acredite, ele escrevia parágrafos curtos, e, quando estava lendo hoje, o livro quebra – não há coisa que mais deteste do que livro quebrado. Prontamente, tive que colar com fita durex e cola, senão não ia conseguir terminar a leitura. Estou quase no fim – agradável leitura. Aprecio textos curtos. Adoro ler tomando chá e mastigando bala de gengibre.

Enfim, depois da minha chata digressão sobre mim mesmo – pessoas solitárias são assim mesmo: adoram falar de si – e genuinamente chatas. Antes, sentia-me mal por conta dessa condição. Porém, percebi que é a única condição humana de facto. Admito que não seja uma condição fácil de ser percebida, e de saber lidar. Para tal, é necessário inteligência e reflexão. Saber lidar com a própria solidão é um exercício de pensamento de longo prazo. Para a vida toda. Mas cheguei a essa constatação quando comecei a me sentir só na presença de pessoas – o que já faz um tempo. Paradoxal, não? Mas foi o que comecei a sentir. E depois observei mais atentamente a diferença mínima que fazia na vida destas mesmas pessoas. Quer dizer: eu não fazia falta. Nenhuma falta. Não que isso fosse um problema.

Mas foi um índice importante: eu precisava ficar só. Sobretudo, quando não se faz falta. Naturalmente, isso foi um processo. Mudanças como estas não podem ser abruptadas. Não digo por mim. E sim pelas pessoas. Porque ninguém admite de livre consciência que alguém não lhe faça falta. Isso soa pouco politicamente correto. É necessário ser hipocritamente correto.

Hoje, sinto-me só. E muito bem.

Não ter preocupações com conveniências sociais. Minhas preocupações estão relacionadas a chegar ao horário no emprego – tenho que garantir a minha sobrevivência. O que vou comer no almoço e na janta. O que vou ler – leio cinco livros por semana. Ouvir – até consertar meu toca-disco, estou sem ouvir nada, e isso me agonia. E assistir – às vezes vou ao cinema, óbvio que cine-clube, não há nada que preste nos cinemas comerciais. Constatei, caro leitor, que sou muito mais feliz comigo mesmo. Achei-me na solidão. Sou uma ótima companhia para mim. Cansei das pessoas. Elas são tão estúpidas. Do alto da minha experiência, lanço uma tese: a felicidade, se é que existe, ela só pode ser alcançada na solidão plena e sublime – se tiveres companhia, ela vai te atrapalhar com ciúme da tua felicidade, e vai perguntar por que estais alegre, o porquê desse sorriso na cara, se tens outra etc. etc. etc. Na dúvida: fique só – vais me agradecer o conselho, caro leitor.
(Felipov)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O alfabetizador

Ontem assisti “Tropa de Elite 2”. O filme é PERTUBADOR, e por causar perturbação, ela se desdobra em angústia e inquietação. E concordo plenamente com aqueles que acreditam que esse é o sentido da arte: causar o estranhamento com a realidade representada, ficcionada, de modo a encaminhar reflexão e ação pensada - ao contrário daqueles que querem "arte pela arte" em moldes bem parnasianos. Como diz o mestre Saramago: "eu vivo dessassosegado, escrevo para dessassosegar". É isso que o filme faz: Dessassosega. Pertuba e Dessassosega. Inquieta e Angustia. Porém, o primeiro filme havia deixado um sentimento: desconfiança. Uma coisa que não tinha gostado na primeira versão, e que se reabilitou no segundo, foi à idéia do "bandido bom é bandido morto", muito bem expresso na narração do Capitão Nascimento. No segundo filme, ele começa com o mesmo discurso, e criticando o professor de História e ativista dos direitos humanos de "defender bandido" – aquele “esquerdista e maconheiro”. Ledo Engano. E ainda bem que, o agora, Coronel Nascimento percebeu que os problemas relacionados à violência no Rio de Janeiro, e, por extensão, no Brasil, não podem ser combatidos pela mera repressão – apesar de indicar isso quando diz que acaba com o tráfico, e no seu vácuo, entra a milícia; mas creio que seja um elemento de construção do roteiro, porque, a meu ver, o tráfico nunca vai ser superado apenas com ações de repressão policial. A questão é mais estrutural, e está relacionado à cultura política brasileira: como participamos da política e como ela participa na nossa vida. Por exemplo: a corrupção produz o bandido que me rouba na esquina. É essa a reflexão que o filme faz. E ela não é uma reflexão fácil, porque requer pensar as mudanças e transformações profundas no que diz respeito ao tipo de sociedade que queremos viver. Por isso que sintetizo o filme na seguinte sentença: o coronel Nascimento é o alterego da sociedade brasileira. Ele, aquele policial honesto e conservador, com um discurso quase fascista, percebeu que a idéia de “bandido bom é bandido morto” não dá conta de resolver o problema do “sistema”, como ele mesmo diz. Porque esse mesmo sistema, em um dos seus elementos vitais, a corrupção, é que precisa ser combatido. É o “malandro de gravata”, o “malandro federal”, é a classe política corrupta que “produz o bandido que precisa ser morto”. E essa mudança de perspectiva representada pelo Nascimento, vejo na sociedade brasileira, embora de maneira embrionária. As pessoas tem compreendido, pelo menos as que tenho contato, que a violência e outros problemas sociais precisam de solução estrutural. Precisa-se modificar a lógica social, o modelo de sociedade no qual vivemos – “o professor de História e ativista dos direitos humanos, maconheiro e esquerdista, tinha razão”. Eu, particularmente, me regozijei com isso – mesmo que essa percepção venha tarde, mas antes tarde do que nunca. E o Nascimento faz isso, quando diz, e lança quase um manifesto: “e a minha luta está só começando” – quase ao final do filme, o que sugere continuação. Nascimento nos diz: sociedade brasileira, abra os seus olhos, porque a luta só está começando. Pensando um pouco mais sobre o filme, lembro a reflexão que Slavoj Zizek faz sobre o processo pós-traumático que passou o mundo ocidental, particularmente, no século XX, em meio a guerras, crises e catástrofes naturais, e início do século XXI, representado pelo 11 de setembro, e que ele não gosta desse conceito para considerar as experiências sociais dos países do "Terceiro Mundo", pois aqui os traumas são provocados e não passam. O filme demonstra isso: somos uma sociedade traumatizada. E para nos encaminhamos para um pós-trauma, temos que necessariamente modificar as relações sociais que produzem esse trauma. Vivemos, infelizmente, em função do trauma. O trauma define e orienta as nossas ações que se traduzem em um sentimento: o medo. É nesse contexto que o discurso de força e violência surgem como solução - para ficar claro, discurso conservador de coloração fascista. É preciso ter cuidado com ele, porque ele é sedutor: promete soluções rápidas e eficazes, porém, em troca de sacrifícios – os seus desdobramentos ditatoriais e de estado de sítio permanente. Urge, portanto, que pensemos soluções que ataquem a raiz dos problemas, no caso, a lógica social em que vivemos, profundamente excludente e desigual, e suas reverberações no campo político. A nossa velha e tão desinteressada política está na ordem do dia. Precisamos, urgentemente, superar o que o Brecht chamou de "analfabetismo político". E parece-me que o Nascimento surge como um alfabetizador. Um alfabetizador que encaminha a reflexão para os problemas estruturais, por exemplo: a corrupção como produtora da violência cotidiana. A corrupção que só pode ser combatida com ações políticas conscientes e coletivas. Claro que não é um processo fácil, e por isso considero feliz a frase: “e a minha luta está só começando”. O processo de alfabetização política está começando – antes tarde do que nunca, insisto. (Uma mensagem subjacente ao texto e que faço questão de explicitá-la é: sejamos pessimistas no intelecto, otimistas na vontade).

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Futuro

Ontem acordei de sonhos intranqüilos. Sonhei com o futuro. Porém, o sonho não me dizia nada, ou ao menos, não me lembro. E isso me angustia. Essa indefinição, esse não saber o que fazer. Querer mudanças, mas não saber como encaminhá-las. O medo de dar errado. Da derrota. Da frustração. Essa insatisfação como comigo mesmo. O sentimento de cobrança. De ser mais e melhor. A inadaptação a tudo e a todos. Não são os outros o problema. A questão é comigo. O problema sou eu. Sinto-me estranho. Quero ir embora. Constato essas coisas, mas não sei como explicá-las. O meu ímpeto de procurar explicações para tudo e não encontrá-las, me frustra um pouco. Sobretudo, quando isso diz questão a mim. Ao meu futuro. Quero, penso, cogito tantas pretensões. Almejo tantas coisas, que não sei. Nada é o bastante. Sou moderno. Quero o autodesenvolvimento. Explorar as minhas potencialidades. Busco e me preparo para as mudanças, elas são importantes e fundamentais, para dar sentido à vida. Contudo, isso tem uma relação dialeticamente intrínseca com o tempo presente, a vida presente – estais vendo, caro leitor, o meu ímpeto de buscar explicações. Ando pelas ruas. Observo as pessoas. Converso nos bares. Um sentimento de solidão me tranqüiliza. Mas, um mal-estar me invade. Como posso pensar o futuro vendo tantos problemas no tempo presente. A miséria vem todos os dias falar comigo pedindo trocados. É tanta ignorância, é tanto embrutecimento. Um dia desses recebi a notícia que um palhaço vai me representar no Congresso – nada contra os palhaços, mas não acredito que se faça política com palhaçadas. Recebi a notícia de que as crianças não sabem ler e nem fazer conta. Não só crianças, adultos também. Pessoas morrem que nem animais nos hospitais. Vi na televisão hotéis, comidas e atendimento especializado para cachorros e gatos – só faltam fazê-los ler, escrever e votar. Os animais têm mais cidadania que as pessoas – claro que os animais devem ser bem tratados. Mas, as pessoas também. São pessoas sem perspectivas nas ruas, expropriando a propriedade alheia. Insegurança total. Crianças no sinal, vendendo a infância. Escolas vazias com professores que fingem que ensinam. Pai sem emprego, mãe sem almoço. Filho sem estudo. Irmã grávida. Será que há alguma relação entre os pomposos salários ganhos por nossos representantes e os problemas sociais que vejo na televisão, sendo que o mesmo jornal no qual isso é noticiado, também exibe reportagens de como posso me vestir de acordo com as novas tendências para o inverno europeu. Ou o que devo fazer para escolher a minha empregada doméstica. Ou ainda, os cortes de cabelo masculino na moda. Será que essas são preocupações do grosso da população, ou com o que vão comer amanhã. Isso tudo me angustia. Faz-me pensar. Porque as mudanças que quero não são meramente individuais, elas são estruturais e coletivas. Talvez seja por isso que não veja o futuro tão nítido. Porque o meu futuro não está descolado do futuro da pessoa que me rouba hoje, ou me mata amanhã. Se ela me mata, acabou o futuro para mim. Como acaba o futuro de milhares de pessoas alhures. E sabe qual a minha explicação para isso: a sociedade do capital – novamente meu ímpeto. Enquanto sobrevivermos nela, não vai ter o futuro que queremos para nossos pais e filhos. O futuro no qual o extraordinário torne-se cotidiano.
(Felipov)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Simplesmente Maria

O nome dela é Maria – foi só o que ela me disse. Quando perguntei “Maria do que”, ela complementou: “Simplesmente, Maria” – seu hálito tinha um cheiro amargamente doce de café e canela. Nome comum. Religiosamente comum. Que expressa simplicidade, força e virtude. Católica não-praticante, que ama incondicionalmente os avós e os idosos alhures, de personalidade forte, independente e irritantemente inteligente, Maria tem dezoito anos. Mora só, com a sua gata rajada de preto e cinza: a tortinha. Chata e implicante, suas tiradas cômicas e anetodário sem fim tem uma meta: fragilizar auto-estimas. Ela é muito desconfiada e é ávida por ler e escrever. Gosta de ler Sagan e qualquer tipo de literatura científica. E literatura irlandesa, sobretudo, o seu maior expoente, James Joyce. “Ulisses” é seu romance favorito – apesar de gostar particularmente do “Os irmãos karamazóvi”. Escreve espantosamente bem, com caneta tinteiro, alguns versos, mas tem preferência, e esse é seu forte, por textos curtos de uma lauda, de um peculiar lirismo woolfiano com pitadas de Lispector. Otimista quanto à vida e pessimista quanto às pessoas. Sua beleza é incansável. Naturalmente bela. Contudo, ela vê a beleza como um problema. Não o seu aspecto estético. E sim, o fútil, o aparente. Tem um inebriante cheiro de alfazema, sabonete e roupa limpa. É uma comunista renitente, filiada em partido e tudo. Apesar do centralismo democrático e todas as suas implicações, sua atuação política é independente, ela sente a necessidade de se organizar, não que concorde com tudo, pois tem seu próprio e agudíssimo senso de autocrítica. Ela acredita que a sociedade por ser organizada em outra lógica na qual todas as pessoas, a partir de condições sociais mais humanas, possam sair do reino da necessidade e entrar no reino da liberdade; e assim, trabalhar todas as suas potencialidades, podendo ser sapateiro de manhã, médico à tarde e escritor à noite – por exemplo. "Se o homem é formado pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias humanamente" – essa frase de Marx guia suas pretensões políticas. É, caro leitor, eu também me surpreendi quando conheci Maria, como pode uma moça de dezoito anos ser tão peculiar, tão madura, tão irresistivelmente interessante e atraente. Sua juventude me deixa confuso, ela é novinha em anos, mas demonstra em seus atos e idéias a experiência própria dos anos de madureza. É de uma juventude madura. Algo muito raro alhures hoje. Ela é rara. Raramente especial. Ela faz Jornalismo. Encontrei-a em um dos cafés da universidade, depois de um dia maçante de aulas e chatices acadêmicas. Ela estava sentada em um canto, sozinha, escrevendo com sua caneta tinteiro e um belo copo de café ao lado. Pedi licença, e sentei-me na mesa. Perguntei o que escrevia. Ela me olhou com os seus olhos castanhos, ajeitando o cabelo que estava no rosto, e disse: “Idiossincrasias que não interessam a estranhos”. Fiquei espantado com a resposta. Mas, repliquei: “Não somos estranhos. Tomamos café” – e levantei o meu copo de café à altura da vista dela. Ela riu timidamente, não esperava a resposta. Começamos a conversar. Tudo o que sei dela foi dito com tanta graça, bom humor e paixão, num gesticular de mãos tão delicado e efusivo, que me encantei de primeira. Encontrei-a ontem. Conheci Maria. Simplesmente Maria.
(Felipov)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Especial

“Tenho uma pessoa especial, e essa pessoa é você”, nunca um enunciado tão curto fez tanto efeito em mim, inscrito à caneta tinteiro um pouco borrado em razão da tinta não ter secado de todo, em um cartão postal com imagens dos campos do sul da Irlanda – ela mora lá. Quanto li essa linha, fiquei feliz instantaneamente, porque te fizeste materialmente presente, pois a muito os meus pensamentos, anseios e desejos convergem pra ti, pra tua imagem, ou melhor, a imagem que faço de ti, a forma como te imagino. Soube que sou especial. Soube que me tens. De fato: sou teu. Eu fico bobo com tudo o que me faz lembrar-te. Quando a tua imagem me vem à mente, apenas coisas boas eu consigo pensar. Por um lado, boas, porque pensar em ti me faz bem. Capitu (é o apelido dela; é, podem dizer, eu sou piegas mesmo), teus olhos de ressaca, me faz bem. A obliqüidade e dissimulação me fascinam. Encantam-me. O cheiro das amêndoas de amores contrariados exala docemente dos teus cabelos cor de cobre. O céu personifica a tua imagem. O teu terno sorriso me faz bem. Quando te conheci, eu estava muito seco, sem sentimentos, muito desiludido das coisas. Porém, hoje tenho estado mais contente, mais bem-humorado, mais alegre, mais entusiasmado. Às vezes, me vejo feliz por simplesmente estar pensando em ti, um sossego, um contentamento me invadem. Criastes um lugar cativo no meu coração. E digo isso sem receio. Por outro, bobas por conta de quer-te incondicionalmente. Querer-te na tua chatice, na tua rabugice. Querer-te nos momentos difíceis, nas tristezas e pesares. Querer-te nas brigas e discussões. Querer-te na discordância. Querer-te na separação. Quer-te na compreensão. Querer-te no reencontro. No respeito às diferenças e semelhanças que tanto nos atraem. É o filme do Godard que não gostei e adorastes – fico encantado com o teu jeito de gesticular para me convencer que o filme era bom. O do Bergman que foi fabuloso e dormistes – ela sempre dorme quando não gosta, não tem como ficar com raiva em te ver dormir sob o meu colo. Os diretores italianos que tanto gostas. A Nouvelle Vague e o Tarantino que aprecio. É o livro do Mann que achei incrível e opinastes que podia ser melhor. Eu não poder falar mal do Gabo – só de pirraça, para te ver zangada, pois também gosto dele. Eu adoro te chatear, te ver de bico, braços cruzados, criticando tudo o que falo. O gostar de gatos – bichos inteligentes, independentes e temperamentais. De literatura russa – nem falei do cinema russo, pra não ficares falando que fico puxando o saco deles. De capucchino – sempre, sempre, sempre, nos encontramos por meio dele. Discutirmos política pela madrugada – aqui concordamos em parte em muita coisa, mas somos unânimes em rir dos liberais. Musicalmente, concordamos em muita coisa. Só não gosto muito de Caetano – mas como sempre, tens-me feito reavaliar algumas das minhas opiniões. Ainda bem, porque o Caetano do passado é bom, o do presente, não. E, demasiadamente, mais bobas em sonhar que me queres. Fico curioso em saber o que pensas, o que queres, o que desejas. Curiosidade de saber das tuas curiosidades, entende? Mas algo me entristece: a distância. A distância do teu cheiro. A distância da tua presença. A distância da tua ausência. A distância dos teus carinhos. A distância do teu amor. A distância do teu silêncio. A distância dos teus gracejos. A distância dos teus problemas. A distância da tua vida. Enfim. A distância de dizeres que sou especial. E eu ficar tão inconsolavelmente feliz.
(Felipov)

domingo, 19 de setembro de 2010

Memória

“A coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Sempre que leio esses últimos três versos do poema “Memória” do Drummond, eu me sinto reconfortado com o passado. Com as coisas findas. Com as coisas vividas. As coisas lindas que se foram e ficaram na lembrança. Confesso que sou demasiado saudosista e nostálgico com as lembranças. Quando elas vêm, eu paro, tomo um café e roço a barba. Pensativo, contemplativo, vislumbrando aquilo que foi. As lembranças têm um cheiro de café quentinho. O café quente, encorpado e saboroso que só a minha mãe sabe fazer. As reminiscências me deixam feliz e triste. E elas estão relacionadas ao que foi e ao que não foi. Há factos e não-factos. Ao real e imaginado. Encerrado em lugares, coisas, cheiros, cores, dias, tempo e pessoas. O cheiro do jambeiro e o gosto de purê de batata com picadinho que me levam a infância. Jogar futebol com o pessoal da escola. As brigas no jogo de botão – é, eu brigava quando o adversário não armava direito o goleiro, ou quando marcava um gol entrando goleiro e tudo no gol. Os poucos aniversários comemorados que tive, a minha mãe apenas fazia um bolo de macaxeira e suco de cupuaçu, chamava a família e uns poucos amigos. Isso era o bastante pra mim. Sentia que isso era o festejar o dia dos meus anos. As peraltices e más criações que renderam brigas e surras. O primeiro beijo, que foi rápido e especial, com cheirinho de alfazema – era o perfume dela. O cheiro da chuva no fim da tarde. Os fiapos de manga entre os dentes. A boca suja de açaí. A mão melada da pupunha saborosa feita na hora. O calor insuportável quando voltava da escola. O interesse pelas moças. O interesse delas por mim. As desilusões juvenis. O gosto por saber mais, de gostar de estudar. O gosto pelos livros. A predileção por História e Matemática. E depois, apenas pela História. E depois, ainda, pela Literatura. É, tive bons professores. As lembranças recentes, por conta de experiências indeléveis, são docemente tristes, e amargamente alegres. O carinho na barba que me deixou bobo. O abraço e os cabelos dela na minha face. O dia todo junto que pareceu tão pouco. A sua chatice e curiosidade que me encantavam. As viagens com os amigos. Os encontros. Os desencontros. As separações. Desentendimentos. Brigas. Confusões. Alegrias. Tristezas. Pesares. Conquistas. Avanços. Recuos. Equilíbrio. Solidão. Dúvida. Dor. Afagos. Distância. Silêncio. Braços, pernas, bocas e vontade. Mãos. Desilusão. Desprezo. Esquecimento. Sentimentos. Sono. Sonhos. A preocupação com o peso. As contas atrasadas. O cabelo por cortar, a barba por fazer. As lembranças vêm e vão. As lembranças me lembram o que disse Tom: “Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver”. Em outras palavras: viver a ventura de viver. Ou melhor, como escreveu Gabo: “a vida não é a que gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. Foi o que fiz: recordei a eterna desventura/ventura de viver.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Amizade

Tenho poucos, raros amigos. Apesar de valorizar muito os amigos, tenho poucos. Tenho a incrível capacidade de não manter relações humanas estáveis. Mesmo de amizade. Eu tento manter amigos à distância. Ledo Engano. É óbvio que isso não é possível. Por isso que são tão poucos. E agradeço a paciência desses raros amigos. Eles precisam de muita paciência para me suportar. Às vezes me pergunto qual o motivo de ainda serem meus amigos. Ao contrário da família, que tem a consangüinidade e parentesco e todas as conveniências e obrigações sociais subjacentes a isso, os amigos são relações sociais criadas por afinidades, convergências e divergências. Porém, sem qualquer obrigação. Pode ser ou não. É uma escolha. Eu sei que não sou um bom amigo. Sou ausente, chato, taciturno, que discute por tudo, que discorda de qualquer coisa, inconveniente, e toda a sorte de péssimas qualificações sociais. Uma pessoa amarga que por questão lógica não deveria ter amigos. Contudo, ao largo da lógica, tenho poucos, raros amigos. Amizades genuínas. Companheiros de conversas tensas, atenciosos (mesmo que sejam 15 minutos, cronometrados no relógio de pulso e anotados no bloco de notas), engraçados (parece que vivem a comer palhacitos, com tiradas cômicas que só faltam me matar de tanto rir), irritantemente inteligentes (é, eles são inteligentes, caso contrário, não seriam meus amigos), implicantes (a implicância virou uma arte na mão deles), conselheiros (é, eles se metem na minha vida), críticos (eles vivem me criticando, nos criticamos mutuamente, nos divertimos na crítica), nerds (é possível ser amigo de nerd sem ser nerd?). Enfim, pessoas sem as quais não me encontraria no mundo. São o meu contrário e semelhança a um só tempo. Eles são próximos e distantes. Que vejo sempre e de vez em quando. Mas são sempre presentes, mesmo na ausência. É uma ausência presente. Os aniversários lembrados, os presentes dados (eles sabem que só gosto de livros como presente), os abraços de reconforto, as palavras de apoio, as críticas sempre pertinentes, os elogios na hora certa, as fanfarronices de vez por outra. A vida compartilhada. Amigos, de perto e de longe, presentes e ausentes, com o passar do tempo, percebi que amizade é uma questão de escolha. São os amigos que nos escolhem. Obrigado por terem me escolhido.

sábado, 11 de setembro de 2010

Morgana

Minha mãe morreu ontem. Recebi a notícia hoje. E vou ao enterro amanhã. Ela chamava-se Elvira. Dona Elvira. Estou arrumando a mala. Ela morava longe. Ela já estava longe a muito tempo de mim. Não nos dávamos muito bem. Saí de casa aos 18 anos – hoje estou com 25. Ela nunca me aceitou. Nunca aceitou minhas idéias e o meu jeito de encarar a vida. Sempre muito rígida e preocupada com o que outros pensariam. Em ser motivo de fofocas ou piadas. Muito religiosa, queria que eu vivesse na igreja. Que eu fosse obediente, prendada, calada e uma ótima esposa. E que tivesse como marido um homem da igreja e com emprego fixo – funcionário público, de preferência. Honrado, reto, integro, sem vícios e família bem falada. Eu fui a única dos meus irmãos que não casei, não flertei, não me relacionei ninguém a olhos vistos. Sempre fui a solteira, a que ficaria pra “titia”. E a que gostava de estudar, ler e escrever excessivamente, ou pelos menos, ao que era conveniente a uma mulher de cidade interiorana. Fui criada em uma cidade cujos espaços de diversão eram: a igreja, a praça e o circo. Eu não gostava de rezar, de aglomerações e de palhaço – sempre os achei sem graça. Afastada e só, dentro da minha família mesmo. Nunca tive paciência para as minhas duas irmãs projetos de “maricotinha” e os meus dois irmãos, de “cowboyzinho”. Lacônica, quieta e sozinha, eu apenas me entendia com uma categoria de coisas no mundo: os livros. Foram eles que me ensinaram a subversão, a crítica, a indignação. Ainda bem que na cidadezinha havia uma biblioteca – com bom acervo, por sinal. Os clássicos da literatura brasileira e mundial habitavam carcomidos as suas prateleiras velhas, empoeiradas e solitárias. A minha rinite reclamava do cheiro de livro velho que tanto gosto. Madame Bovary e Ana Karênia eram inspirações. Ambas me mostravam que era possível pensar e agir diferente em uma sociedade conservadora. Por mais que tivesse problemas com a minha mãe, não concordasse com nada que ela pensasse ou dissesse, eu a admirava. Viúva cedo, meu pai morreu por conta de um acidente de carro, criou os filhos só, como costureira. Sempre foi altiva, briosa e autoritária. Não admitia conversas na mesa, a refeição era sagrada. Nem brigas, quem brigasse era severamente castigado, com toda a sorte de castigos – nem preciso dizer o quanto eu fui castigada. E muito menos que se questionasse uma ordem ou vontade sua – ela nem discutia, apenas olhava com um olhar inquisidor. Uma vez questionei por devíamos rezar tanto, ela apenas disse-me, secamente: “Agora vais rezar pra Deus te curar da surra que vou te dar menina insolente”. Eu tinha dez anos. E tive que rezar mesmo, porque levei uma surra de vassoura de açaí que demorou uma semana para estancar a dor. Nunca mais a questionei, ao menos verbalmente. Saí de casa porque ela queria me casar com um primo, um tal de Francisco, que trabalhava como escriturário no cartório da cidade. Quando ela veio me impor o destino, eu gritei-lhe na cara: “Enfia esse pretendente no cú, quem manda na minha vida sou eu”. Dali pra frente, era eu e a minha parca inteligência. Uma coisa que ela sempre me dizia, por conta da minha intempestividade lacônica: “Morgana, minha filha, aprenda uma coisa na vida: só tem honra quem tem dinheiro”. Nesse dia, eu mostrei-a que tinha honra e nem um pouco de medo dela, e que queria apenas que minha vontade e opinião fossem respeitadas. Fui morar na casa de uma tia na capital, a tia Anastácia, solteira, fanfarrona, hipocondríaca e advogada, e me formei jornalista. Moro só, com o Boris – meu gato laranja. E tenho um rolo com o Ivan – que trabalha comigo no jornal. Quando estava voltando do trabalho, recebo a ligação de Margarida, minha irmã mais velha, informando sobre o falecimento. Cheguei à cidade bem na hora do enterro. Meus irmãos pediram que eu fizesse um discurso em nome da família. Fui de curtas palavras, apenas disse: “Aqui jaz um tipo de pessoa rara hoje em dia: briosa, de caráter e palavra. E digo publicamente: mãe, admiro-te profundamente, porque te amar eu sempre de amei”. Uma coisa que lamento é nunca ter falado que a amava. Depois fui saber pelos meus irmãos que o dia que ela mais lamentava na vida foi o que saí de casa, e que se arrependia mortalmente. E que eu era a sua filha favorita, a mais parecida com ela. A sua imagem e semelhança. Chorei amargamente por saber disso. Quando voltei a minha vida normal, soube que estava grávida. É, ela me chamou: a condição feminina inexorável de ser mãe.

domingo, 5 de setembro de 2010

Um sonho

Primeiro, foi ela quem me encontrou. Dou graças até hoje por isso: sou incorrigivelmente tímido e sem iniciativa. Apenas olho, contemplo e observo. Sem qualquer pretensão ou ação. Claro que tenho os meus lampejos, ou melhor, os meus espasmos de atitude e iniciativa. Eles são raros. Já tentei me perguntar o porquê disso. Foi mais uma boa pergunta sem resposta – das muitas que já fiz a mim sobre mim mesmo.

Mas, enfim, quero falar dela. Do encontro.

Quando a vi pela primeira vez, eu estava sentado no banco da praça que tem perto da vizinhança, lendo o jornal, ela passou com alguma rapidez, com uma sacola de pães nas mãos, dirigindo-se a sua casa. Trocamos olhares. Seus olhos me encantaram no primeiro instante. Não havia nada de especial neles, mas eles me encantaram, pois expressavam a sua alegria e melancolia. Certa vez, na minha leitura matinal, ela sentou do meu lado. Pensei que fosse outra pessoa qualquer, um dos meus amigos comentaristas de futebol ou política. Quando a vi, fiquei um pouco surpreso. Ela percebeu a minha surpresa e deu um leve sorriso, e sorri com ela. Disse: “Já tomaste café?” – bastante solicita. Pensei e respondi: “Ainda não” – um tanto envergonhado.

Fomos a um café perto da praça.

Pedimos dois capucchinos e começamos a conversar.

Falou-me de sua vida, das suas preferências e gostos culturais e posicionamentos políticos. Disse-me que gosta do teatro e poesias de Brecht, dos romances de Saramago, Dostoiévski, Mann e Joyce, e ter especial predileção por Florbela Espanca. Discorria com tanta propriedade sobre literatura, apresentando suas impressões e preferências, detalhes, personagens, citava partes inteiras de memória – ela falava com as mãos também, gesticulava com tanta graça, efusividade e gravidade. Fiquei impressionado com tamanha demonstração de erudição literária. Sobre música não foi diferente. Ia da música clássica, passando pelo rock progressivo, a música brasileira, do samba, mutantes, Chico, Caetano, a Paulo Diniz – e cantava alguns trechos com tanta graça e charme, com uma voz linda de soprano. Emudeci. Apenas apresentava minhas opiniões e gostos de forma lacônica.

Queria apenas ouvi-la.

Queria apenas que me encantasse.

Quando começou a falar sobre política – mas já tinha percebido que era uma crítica do liberalismo, do casamento, a favor do aborto, na verdade, pelo pouco que percebi, em matéria de política, ela era daquelas que “devemos aceitar tudo, menos o que pode ser mudado” –, a garganta já estava seca, e percebemos que o capucchino estava demorando.

O capucchino já estava vindo.

Nesta hora, ela parou de falar e olhou-me nos olhos.

Ela viu como eu a chamava, fiquei um pouco envergonhado, e toquei as suas mãos. Agora, foi ela quem corou, cheguei mais perto e toquei os seus cabelos. Mais perto cheguei, e senti o seu cheiro inebriante. Mais perto ela chegou, elogiou meus olhos verdes, e afagou-me a barba.

O capucchino chegou.

E eu acordei.

Pena que tenha sido apenas um sonho.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Despedida

Ela se foi ontem. Sem despedida. Sem remorsos e resignações. Disse-me que havia encontrado o amor de sua vida: óbvio, ele não era eu. Eu sabia que as coisas não estavam bem. Havia muitos silêncios, conversas sobre o trabalho e reclamações. Cobranças, desconfianças e ciúmes. Pesar, muito pesar. Era um sentimento de solidão a dois. De companhia só. Sem carinhos, admiração e encanto. Apenas um compromisso sem sentido. Até as afinidades compartilhadas, eram aparentes. Nós planejamos uma vida juntos, nome dos filhos, um casal: Clarissa e Ivan, uma casa no campo para os fins-de-semana, um cão e um gato. Uma família de margarina. Acabou. Fim. Amei-a muito. Como sempre, o início é a melhor parte, a melhor parte de tudo. Os olhares trocados, a vontade instintiva de se ver, o coração arrítmico, as mãos a desaguar de nervosismo. Todas as manifestações do amor da primeira hora. Para outros, da paixão pura e simples. Porém, hoje digo: os primeiros passos em direção a ilusão. Ela se foi. E invariavelmente, levou uma parte de mim. Falou-me, secamente, que era para lhe esquecer. Era sério, impreterível e irremediável. Foi embora com o meu amigo. Não o culpo, ela tem os seus encantos. Fico até feliz que tenha sido com ele, é um conhecido. Disse que se casam no mês que vêm e vão morar fora do país. E que está grávida. Suspeita que seja menina, e vai dar o nome de Sofia – ela sabe que adoro esse nome. Não sei por qual razão eu senti um alívio nisso tudo. Só fiquei irritado porque chorei, uma mera reação fisiológica as emoções, e que ela levou a minha edição bilíngüe do Dom Quixote, uns dois livros do Gárcia Marquez, o tomo I do Capital e dois discos de Noel e Cartola. Irritei-me, mas depois resignei. Espero, que com essas aquisições forçadas, ela dê uma formação decente a criança. E seja feliz, de verdade, com toda a sinceridade. Pois, cá eu, fico apenas com o alívio de um amor que se foi com a tranqüilidade dos tempos de madureza.
(Felipov)

domingo, 15 de agosto de 2010

Sou velho

Taciturno, lacônico e levemente irritado, depois de um dia cansativo de trabalho, fui tomar um capucchino. Precisava relaxar. Poucas coisas causam tanto prazer quanto uma xícara gelada de capucchino – óbvio que quente também. O gosto do café, chocolate e canela me alegram. Cada gole me faz feliz. Ao lado disso, uma bela fatia de bolo de macaxeira e café com pupunha – é, a gula é um pecado que me apraz. Esses manjares me faz lembrar a infância saudável e amável que tive. A cada gole do capucchino, observei que o café que freqüento, tocava música ao vivo, na verdade, piano ao vivo. Eram goles sonoros de deleite. De pronto, gostei do lugar. Gostei do ambiente: simples, sóbrio, discreto e intimista. No deliciar do capucchino e da música, que, por sinal, o repertório do pianista era muito bom, fui atentar para as pessoas alhures. Na maioria, idosos. Quer dizer, somente idosos. Conversavam, riam, tomavam café e apreciavam a música. Velhinhas bem vestidas com as suas pérolas. Velhinhos alinhados com suas gravatas borboletas e suspensórios. Ouvi alguns diálogos. Uns tratavam de jazz, outros debatiam preferências entre o samba de Noel e Cartola, outros ainda, a validade do liberalismo no mundo atual. De súbito, identifiquei-me com tudo aquilo. Senti-me ternamente incluído. Senti-me acolhido junto aquelas pessoas estranhas de outra geração. Na verdade, ponderei melhor, elas eram familiares e eu que estava na geração errada, eu pertencia a deles. De facto, nasci na época errada. Percebi que sou um jovem idoso, com os gostos e comportamentos de outrora. Sou velho e isso nunca soou tão bem e fidedigno.
(Felipov)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Precisamos dos ovos

Um homem chega ao médico
e diz: “meu irmão acha que é uma galinha”.
O médico responde: “ora, leve-o ao psiquiatra”.
O homem responde: “mas eu preciso dos ovos”.
Woody faz a analogia
desse diálogo com relacionamentos.
Sabemos os problemas
que eles causam:
ciúmes, desconfianças,
cobranças, desgostos,
etc, etc, etc.
Mas, o amor é uma ilusão
necessária, que dá sentido
e graça à vida.
Seguimos de ilusão em ilusão,
de solidão em solidão.
Da patética alegria da paixão,
o coração que acelera,
as mãos que umedecem,
de contar com alguém,
com a simples presença,
as conversas fortuitas,
o compartilhar momentos,
os carinhos, os abraços,
os beijos, o olhar sincero,
um colo e carinhos no cabelo
na beira da praia a noite.
É, Woody, de facto,
Precisamos dos ovos.
(Felipov)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O assalto

Vento e chuva,
eu aguardo.
“É um assalto”,
ouço uma voz.
A propriedade
é expropriada
dos meus bolsos.
Vagabundos, meliantes,
ladrões, filhos da puta,
caralho, porra.
Peço ajuda ao Estado.
Ele vem armado, pronto,
para a repreensão.
Não achou bandido,
não houve castigo.
Sempre apelamos
ao paliativo, ao imediato.
O desvalido não é o problema.
A ordem, o capital, a ignorância,
os malandros federais,
estes sim,
são o problema,
eles roubam um futuro,
no qual, o desvalido seja
apenas um poeta, um arquiteto,
um artista.
Podes achar: discurso velho.
Contudo, correto, infelizmente.
(Felipov)

Estrangeiro

Esses tempos
sinto-me um estrangeiro.
Sinto-me no não-lugar.
Um estranho.
Um inadaptado.
Um Outro.
Não há referência.
Não há lugar no
familiar, no corriqueiro.
Há, sim, cansaço, fadiga
de tudo, de sempre,
do mais do mesmo.
Da província, do local,
do focal, do estreito,
da bitola habitual.
Frio na praia,
conversas chatas,
escrever na praça,
diversão de graça,
solidão grata, e
amor na garrafa.
É disso que preciso.
(Felipov)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Mudança

Cá estava eu pensando
Sobre meus sentimentos
Dá certeza se te amo
De frustrar teus sentimentos
Agora, pensamento bem
Creio, cogito, pondero
Que não te ame mais
De tanto elucubrar, calcular
Acabei neste instante
De pena na mão
Chegando à conclusão
Concluo que errei
Errei, de tanto formular, sopesar
Eu pouco senti, pouco senti...

Gota D’água

Palavras abruptas
Faladas sem pensar
Ditas no impulso
No calor do temperamento
Desconfiança, ciúme
Falta de paciência
Medo da traição
Amor controlado
Não, por mais que goste
Quiçá, te ame
Não vejo futuro para nós
Não vislumbro uma vida juntos
Portanto, adeus...

Confissão

Escrevo-te na calada da noite
No incômodo da insônia
Em profusão de pensamentos e sentimentos
De amor, ternura, amizade, indecisão, separação
Do futuro de nossa relação
Confesso-te, tenho dúvidas
Quase certezas, digo certeza pela razão
Pelo custo-benefício
Contudo, dúvidas pelo sentimento
Sem cálculo ou mensuração
Porém, de tantos desgostos e infortúnios
Creio que os sentimentos concordam com a razão
Não dá mais, desculpe
Não te quero mais, lamento
Apenas uma última palavra:
Agradeço a paciência e sejas feliz!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Maria Flor

à Rafaelita

Conheço-a
Sei como é
Vi suas mudanças
e dissonâncias
com as teorias
sobre a vida
racionalmente
formuladas
E na mesma vida
testada, e nem
sempre comprovadas
Como sempre falo,
os sentimentos fogem
e se vão dando novas
conotações ao que
havia sido pensado

As mudanças
advindas
são bem-vindas
Ela ficou mais
leve, confiante
engraçada, bonita
bruta, seca, indiferente,
mal-tratando os corações
alheios com sua maldade
inata e avassaladora
que transforma alegria
em tristeza e
amor em ódio –
dramático, não?
Piadas a parte
Acredito,
que agora sim,
ela se encontrou

Gosto musical
refinado à brasileira
do sertão à Caetano
Na literatura, procura
erudição e diversão
ainda se encaminha
em leituras preliminares
Ela precisa ler os russos,
Drummond e Pessoa
Além da prosa, carece
ver a vida em versos

De um jeito
paradoxal
ela é uma
menina-menino
Síntese
de um jeito másculo
com toques da ternura
feminina
A força da Maria
e a ternura da Flor
Enfim, Maria Flor

(Felipov)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Liberdade

Nunca tinha sentido
isso antes
O que o camponês sentiu
com o surgimento da cidade
O jacobino com a Revolução Francesa
O proletário com a Revolução Russa
Foi o que senti quando acordei hoje
Liberdade – foi o que senti
A liberdade de se preocupar consigo,
do eu ensimesmado,
do ter consigo,
do se ver em si –
não confundir com egoísmo
É apenas liberdade – o estar bem em si, só
Sem compromissos, obrigações, cobranças
É o ser na sua medida natural – se isso é possível
Contudo, ao pensar nisso, me veio
aquela sentença sartriana:
o homem está condenado a liberdade!
Estamos mesmo?? – fica a questão.
Adianto uma resposta: não sou livre,
pois tenho consciência do mundo –
deveras moderna, por sinal.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Um amor de barba

Ela pega na minha barba. Sempre que estamos juntos, é quase um ritual: o momento da barba. Adora fazer carinho, passa as suas alvas mãos por todo o meu rosto. Seus dedinhos cálidos nas minhas sobrancelhas, fazendo o seu contorno. Com leveza, afaga-a toda, seus gestos repetitivos com as pontas dos dedos, que faz um leve ruído ao atritar com os pêlos, me dá um sentimento absoluto de paz e tranqüilidade. Ela diz o quanto gosta dela – já fez até juras de amor, com quais me diverti muito. De como é proporcional ao meu rosto. Que o meu sorriso contido fica melhor com ela. Macia, cheirosa e sedosa – é como me deixa sem graça. Até os meus beijos são mais estimulantes e saborosos com o roçar da barba nos seus lábios. Por isso, aprecia especialmente o bigode, pois é com ele que faço carinho nela, através dos beijos. Ela sabe como me agradar: é só me colocar no seu colo, pegar nos meus cabelos e acariciar a minha barba – eu viro uma criança feliz e satisfeita. Fica por horas a fazer isso sem cansar, era como se o tempo parasse a nos contemplar, observando aquele momento de terna e profunda reciprocidade, que por invejar, como punição, acelerava o cair ritmado da areia na ampulheta. São horas intermináveis de beijos e carinhos na barba, que pela inexorabilidade do tempo, acabam na sua eternidade momentânea. Sempre dizia que quando a tirava transformava-me em outra pessoa, que até de personalidade eu mudava. Não era mais seu barbudo. Adora chatear-me com a sua simples implicância. O ritual termina com ela beijando todo o meu rosto, e, portanto, toda a minha barba. O nosso amor é mediado por ela. Um amor de barba – se isso é possível.

(Felipov)

terça-feira, 25 de maio de 2010

A nós temos

Esses tempos
tenho procurado
a tranqüilidade
da vida só
Ao sabor de boas prosas
dos amigos presentes
Copiosas leituras da poesia
que passa nas horas, com as
mãos dadas do doce itabirano
Na melodia de músicas
instigantes ao tom de Chopin
e o Chico de sempre
Nesse ínterim, uma coisa aprendi:
a vida tem sua lógica própria
Não é necessário correr,
procurar ou gritar
Ela bate a porta
com suas surpresas:
alegrias, amores, dissabores
Nos leva e nos a levamos
De facto, nos atuamos
e ela atua na gente
E é nesse leva e traz
dialético, contraditório,
de dupla determinação,
em que vivemos
e que seguimos
guiando nossas vidas, e
que apenas a nós temos,
sempre...

Detalhe

Meu caro amigo

Uma coisa aprendi

sobre o amor

na última hora:

O detalhe o faz

As ínfimas coisas

Gestos

Afagos

Carinhos

Carícias

Sublimações

Pensamentos

Anseios

Aflições

Ciúmes

Alegria simples

e incontida

sem razão de ser

Contentamento

do simples sentir

Os beijos tácitos

marcantes do simples

toque dos lábios

Os momentos

de doce intimidade

e seus sussurros ao natural

Ou menos, a simples palavra

elogiosa, um comentário qualquer

O compartilhar a vida nos seus detalhes

Essas sutilezas, não valorizadas

É que definem o amor

A felicidade, do qual resulta, é

tecida ternamente nos detalhes

Meu caro, os detalhes, atente pra eles