segunda-feira, 25 de junho de 2012

América do Sul





Ontem escrevi o meu primeiro texto na máquina de escrever. Foi um pouco difícil. Duas laudas com as trivialidades que escrevo. Uma história triste com final ruim. Mas foi prazeroso. E um exercício importante. Na máquina é mínima a possibilidade de erro. Consegui organizar melhor o pensamento e escrever de um fôlego só. Aliás, tenho a impressão de que escrever na máquina torna a escrita mais real. Nos últimos tempos tenho procurado o real na ficção. Abandonei a academia.  Ostracismo voluntário. Por mais que eu gostasse daquele ambiente – das discussões, dos estudos, enfim - não me via mais representado junto àquelas disputas mesquinhas e debates sobre qualquer coisa, menos o real. Prefiro a literatura. Ela é muito mais real pra mim. Uma unha encravada. Cheia de pus, dedo roxo, unha quase caindo. Puta que pariu, como essa porra dói, nunca mais corto a unha na pressa, aquele unhex todo cego, é isso que dá deixar tudo pra cima da hora. É Jorge, tem que se fuder mesmo; agora aguenta, viadinho. Só os gordos sabem da missão hercúlea que é cortar a unha do pé, ou amarrar os sapatos. Porra, eu estou ficando muito gordo, daqui a pouco não vou ver nem meu pau mais! Toma jeito, Jorge, toma jeito. Mas quando pensava nisso, ficava tranqüilo; ela aceitava suas imperfeições, ela o amava. Ele a amava. Coriza, sinusite, renite, poeira, pó, fumaça, nariz em desgraça, aquela edição antiga, comprada semana passada num sebo qualquer; folha amarela, capa solta que colou com fita durex - cinco reais, uma pechincha, não podia passar. Foi todo o dinheiro do ônibus, voltou andando para casa. Ele precisava mesmo, sedentário mórbido. Estava feliz pelo livro, a caminhada compensou, ficou até mais tarde ontem lendo – “Dias na Birmânia”. Égua, Orwell é um cara admirável, um cara que nasceu raro, um daqueles escritores que dá vontade de ler toda a obra. Pendurado no cheque-especial. Deve cinco mil reais no cartão de crédito. Luz, água, telefone, atrasados. Porra, eu queria ter nascido na primeira metade do século XX, ter vivido naquele tempo, viver duas guerras mundiais, uma guerra fria, matar filhos-da-puta, ter levado um tiro, talvez me fizesse mais homem, e não esse pária frouxo que eu sou. Morava só. Formado em Filosofia. Trabalhava na prefeitura, auxiliar administrativo - dois salários mínimos. Quatro anos lendo os primores do pensamento humano, conclusão: o amor à sabedoria não paga contas. Kant foi uma das maiores perdas de tempo na minha vida. Apesar de tudo, Jorge era feliz. Estava lendo Orwell e amava perdidamente sua namorada. Conheceu-a nas filas do R.U. Ele estava concluindo, ela era caloura em Metereologia. Apaixonou-se de primeira. Três meses depois, estavam namorando. Ela foi difícil. Ele teve o prazer da conquista. Ela cedeu pela insistência e inteligência. Isso faz dois anos. Depois que se formou, saiu de casa, queria ser independente, dar aula, viajar e ser escritor. Enviou currículos, pediu indicações, nada. O amor ao pensamento era desprezado no país de Sarney. Sócrates se exilaria para o Hades. Fez o primeiro concurso que apareceu. Passou. Sua vida era dedicada a seis horas de trabalho, dois dias de trabalho em um cursinho pré-vestibular na periferia. Ler, escrever, beber e amar Walquíria. Às vezes saía com Marcelo, seu amigo dos tempos da faculdade – um dos seus raros amigos. Com ela, tudo era sinônimo: alegria, felicidade, contentamento. Apesar de naturalmente triste, ela era sua alegria. Marcelo era seu chapa, aquele cara que sempre podia contar, apesar de alguns hábitos estranhos, como gostar muito de futebol e colecionar camisa de time. Estranho, mas legal. Vez por outra, ele quebrava uns galhos para Jorge, por exemplo, uma vez ele ficou doente e não teve como ir dar aula no cursinho; prontamente Marcelo resolveu. Enfim, era aquele cara que podia se contar. Ele namorava com a Jéssica, uma amiga da Walquíria. Jorge não a conhecia muito bem. De quando em quando, saíam os quatro juntos. Era divertido. Mas Jorge gostava mesmo era de sair apenas Marcelo e Walquíria. Isoladamente, é claro. Percebia que quando saíam os três, havia algo de estranho que ele não sabia explicar, mas algo de estranho acontecia. Jorge nunca se perguntou mais afundo o razão deste mal-estar. Deixou pra lá. Estava feliz. Amava Walquíria, e ela o amava. E estava lendo Orwell. Marcelo, tens que ler George Orwell. Ele é um cara admirável. Nunca vi ninguém escrever algo tão real, tão verdadeiro, tão próximo de suas crenças pessoais. Um cara que sempre procurou ter uma postura renitentemente honesta e decente. Conversa de bar, duas cervejas. É mesmo, Jorge, já vens um tempo falando dele mesmo; quando terminar, me empresta. No momento, não estou lendo nada, o meu tempo todo está sendo dedicado a planejar aula e corrigir prova, uma merda. É, rapaz, uma merda mesmo, suga todo o teu tempo livre; por falar nisso, essa é uma coisa que tenho pensado ultimamente: cada vez mais temos perdido nosso tempo livre, percebeste que nunca temos tempo para fazer o que realmente gostamos? Vivemos sempre em função de carga horária de trabalho. Rapaz, isso não é vida. Cara, é isso mesmo, foda mesmo, mas é necessário sobreviver, ganhar esses trocados e tocar pra frente. Outra coisa que tenho pensado muito, Marcelo, é sobre honestidade. Cara, o Orwell tem me feito pensar muito sobre isso, sabe, de ser absolutamente honesto em tudo na tua vida, de ir contracorrente mesmo. É, Jorge, concordo contigo, o foda é que tens tempo para pensar, nem isso eu estou tendo; tenho vivido no automático ultimamente. Tu, eu e o resto da humanidade, pelo visto. É. Garçon, bote mais uma aqui. A vida seguia seu transcurso natural. Apesar das reflexões, Jorge considerava-se feliz. Ele amava Walquíria. Toda vez que se sentia triste, era só pensar nela, e tudo ficava melhor. Ele sempre lembrava um trecho de Sófocles, de uma obra que sempre esquecia, que dizia que o único alívio para a dor e o sofrimento inerentes a existência era o amor. Isso fazia muito sentido para ele. Jorge estava juntando um dinheiro. Planejava há três anos uma viagem pela América do Sul. Queria dar de presente no aniversário de Walquíria. Os dois locos pela America. Para isso, privou-se de várias coisas - economizava nos mínimos detalhes, compra tudo mais barato, até a cerveja. Ela ainda morava com os pais, mas tinha a chave do apartamento de Jorge. Praticamente viviam juntos. Depois da viagem, ele pretendia pedi-la em casamento. Ele era um cara tradicional em algumas coisas, queria ter família e filhos. Não há sabedoria no que penso, no que digo, no que escrevo. São apenas devaneios. São apenas escritos à marteladas cingidas pela minha obscura consciência. O sentimento amoroso é uma das maiores razões da ruína de um homem. A sua derrocada completa estava assentada no contentamento do amor. O ocaso em acreditar-se feliz. O desespero da paixão fazia-o viver, pleno, vigoroso, atento. Ele estava amando. Ela foi a sua derrocada. Égua, acho que isso tá ficando bom, está melhor que aquele que escrevi outro dia; de qualquer maneira, serve para exercitar o pensamento nas teclas. Tenho que comprar óleo lubrificante, estas teclas são duras que nem o diabo. Péssimo dia de trabalho, não via a hora de chegar em casa, comer, tomar banho, descansar um pouco, ligar para Walquíria, saber do seu dia, da sua vida, e escrever alguma coisa para ela. Seria seu primeiro texto sobre amor. Por sorte, fora liberado mais cedo no trabalho. A porta estava aberta. Walquíria estava em casa. Uma surpresa. No quarto, ela estava arrumando suas coisas, estava indo embora da sua vida. Desculpe, Jorge, estou indo embora, estou apaixonada por outro cara, um professor da faculdade - um homem de verdade, adeus. Ela saiu, sem dizer mais nada. Ele ficou sem entender porra nenhuma. Resignou-se. Tomou uns porres. Falou com o Marcelo. Ele, como amigo, aconselhou: isso acontece, esquece isso, bola pra frente, é assim mesmo. Passou um mês. Ela se arrependeu, viu a merda que fez, foi chutada pelo cara mais velho. Usada, sentiu saudade de Jorge e percebeu a dimensão do seu amor por ele. Quando entrou em contato, ele já estava no exílio. Agora eram só ele, a máquina de escrever e a América do Sul.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O homem e a sua dor








I


“Penso, às vezes, tão somente, às vezes, que tudo aquilo que fazemos na vida, os erros cometidos, as escolhas feitas, os encontros, os desencontros, as ausências, as cobranças, enfim, todas as merdas que aconteceram, poderiam de alguma forma, malgrado a nossa vontade, tomar um rumo diferente. Entretanto, questiono-me, o que seria de nós agora, no estágio atual da existência, se nossas escolhas fossem diferentes daquelas passadas. Fico razoavelmente triste. Estas imponderabilidades me deixam triste. Depois, percebo que isso é inútil. Vou beber, ler, fumar, trepar – fazer a vida valer alguma coisa”

“Essas dúvidas, dentre inúmeras outras, golpeiam os meus pensamentos. A esta altura da minha vida, ainda encontro-me a deriva. Não é perdido, só os fracos consideram-se perdidos. Estou a deriva. É difícil definir isso. É o que sinto, apenas. Talvez seja um sentimento de covardia daquelas pessoas acomodadas, que sabem quais são os seus problemas, que sabem dos problemas do mundo, que sabem o que devem fazer, ao menos, em hipótese, para mudarem suas razoáveis existências para algo menos medíocre. Sem lamentações estéreis. Sem resmungos inúteis. Sem críticas razoáveis destituídas de ação. Eu sei disso. Todavia, a dor me consome. A dor me imobiliza”

O homem e a sua dor merecem respeito. Ele carregava em si o fardo de uma vida de frustrações, desilusões, fracassos, derrotas.

Atrás daqueles óculos de grossas lentes, um tanto desgastado pelo uso excessivo e ignorando a necessidade social de renová-lo, um tanto anacrônico diante da intempestiva atualização da moda, havia uma visão turva, míope, nebulosa, por vezes, invertida, de cabeça para baixo, da vida presente, da vida futura – o passado não lhe pertencia, não lhe interessava.

“Eu tenho que trocar a merda destes óculos. Ora porra, depois eu faço isso. Quando fizer o supermercado, faço isso também, coloco o lixo pra fora também, e lavo roupa também. Porra, tem um monte de coisa pra fazer. Tenho coisa mais importante pra fazer: contemplar o nada”

Atrás daquela barba desvalida havia um rosto fincado pelos anos, pelas rugas que protestavam os raros sorrisos, alegrias, felicidades, rasos, pequenos, ínfimos, esmagados, soterrados pela impiedade da vida, diante do pranto, desventura, expressão impávida, cerrada, de quem impõe respeito de uma esfinge pelo penetrante padecer registrado nos logradouros da alma.

“Foda-se estas roupas, eu gosto delas, depois eu tiro essa barba – olhando-se no espelho, arrumando-se para o trabalho. Porra, mas tenho que comer melhor, senão vou fuder a minha saúde, e correr um pouco, estou virando um espantalho... hahahaha... um espantalho... essa foi boa”

Atrás de suas roupas desgastadas, puídas, velhas havia um corpo magro, decrépito, esquálido, resultado direto dos anos, da vida, do sofrimento. Aquelas externalizações declamavam silenciosamente com a voz grandiloquente das tragédias gregas a tristeza da sua existência.

Sua fronte depunha contra a descrição dos seus atos. Reservado, fechado, lacônico, agressivo, irritado, taciturno eram expressões invariáveis que definiam o seu ser no mundo, aquele espectro corcunda imperceptível, invisível, insignificante.

Seu olhar transcrevia longamente o que a vida havia lhe reservado, mesmo que seus olhos esquadrilhassem permanentemente o chão, nunca encarava ninguém a altura dos olhos, não se importava com o infortúnio alheio que gritava com a voz intimorata de desespero dissimulado encravado no olhar tácito de rostos cheios de dentes arreganhados.

“Lixo humano. Um amontoado fétido de lixo humano. Eu também sou lixo. Bem fedorento e feio, por sinal. Mas ainda me considero por alguma razão que me escapa agora minimamente reciclável. Aquelas vidas plásticas, perfeitas, moldáveis, rotuláveis, produzidas em massa, consumidas pela felicidade enlatada dos comerciais de refrigerantes, vão apodrecer milhares de anos que duram algumas décadas de suas vidas em aterros sanitários do trabalho, da igreja, da família, dos amigos, das festas, dos amores, enfim, até que chegue o derradeiro momento da decomposição completa e inicie-se o ciclo novamente. Talvez, seja esse o sentido da vida. Fouda-se”

Tentara utiliza-se destes artifícios nos tempos da remota idiotia que lhe rondava a vida, constatado a esterilidade do ato, julgou mais inteligente e sincero consigo mesmo assumir a sua miséria. Fumava seu cigarro como se fosse seu único amigo. Bebia sua cerveja ignorando com insofismável satisfação a sociedade.

“Comandante, bote uma cerveja da pesada e um maço do seu cigarro mais caro”

“Tudo bem, chefe”

Skol e um maço de Derby.

“Porra, eu pedi o cigarro mais caro, e não essa porcaria. Eu pensei que os serviçais tinham que pelo menos terminar a escolarização para servir. Não consegues entender um comando simples, a diferença entre caro e barato, entre o que vale mais e o que vale menos, seu analfabeto funcional. Traz logo um Marlboro” – contrariado em voz alta.

“Beleza, calma aí, chefe, pensei que o senhor incentivava a indústria nacional” – rindo da provocação.

“Indústria nacional é o caralho. Vê logo o meu Marlboro”

Cinco cervejas e um maço.

Esfriados os ânimos.

“Manere aí chefe, o senhor está sem amigos, o senhor está sem mulher” – rindo novamente.

“Olha, filha da puta, o meu pau é o meu melhor amigo. Foudam-se amigos e mulheres”

“Hahahahahaha... é isso mesmo, chefe” – rindo do bêbado.

“Esses filhas-das-putas só querem fuder com a paciência. Não se pode beber sozinho em paz nesta merda de cidade”

Dez cervejas e dois maços.

“Comandante, mande a conta, por favor”

“Tudo certo, chefe”

“Desculpe a grosseria da chegada, ando meio impaciente esses tempos...”

“Sem problemas, chefe. Todos temos problemas. Relaxe”.

“Obrigado pela paciência”

“Não a de quê”

Paga a conta.

“Chefe, o senhor não quer que eu chame um táxi ou o seu amigo vai lhe ajudar a ir pra casa... hahahaha”

“Chame, por gentileza”

“Tá certo, chefe, o senhor é inteligente”

Chega o táxi.

“Só uma coisa Comandante: o meu pau não vai me ajudar a ir pra casa porque ele vai me ajudar a fuder o cu da senhora sua mãe, aquela vadia que te escarrou no mundo... filho-da-puta... hahahahaha”

“Ahhh... esse filho-da-puta quer morrer” – parte para cima dele. É impedido pelo dono do bar.

“Rapaz, deixa ele em paz. Bêbado é assim mesmo, não sabes? Ainda ficas provocando ele, bem feito pra ti... hahahaha... olha a mesa ali querendo cerveja...”

“Beleza... mas um filho-da-puta desse merece uma lição... a se merece... com mãe não se brinca...”

“Assumir-me na inteireza da minha miséria talvez tenha sido o único ato de total sinceridade comigo mesmo. Ser sincero consigo mesmo é o que realmente importa. No final, é o que importa”

Realmente, não se importava. Só duas coisas lhe interessavam na mesma proporção irremediável que a água, o oxigênio e o alimento que sustentavam sua matéria ignara: ler e escrever.

Funcionário público da Justiça Eleitoral, ele desfrutava da vagabundagem remunerada – muito bem remunerada. Todo o seu tempo livre era consumido em leitura e escrita. Na verdade, a vida ainda lhe segurava fortemente com suas garras de sentido devido aos seus olhos engarrafados e as mãos incrivelmente sadias. Só havia sentido no prazer da vista cansada depois de ininterruptas horas de voluptuosa leitura.

Ler, para aquele homem, era estancar a dor, fazê-la diminuir, assimilá-la, entendê-la, enfrentá-la como uma extensão do seu ser, ao mesmo tempo, experimentá-la de maneira nova, sempre nova, sempre atualizada, que jamais lhe abandonaria.

“Caralho, tenho um monte de coisa pra ler. Dostoiévski, Joyce, Mann, Goethe, Melville, Graciliano Ramos, Drummond, Guimarães Rosa. Ainda estou no meio do ‘Os irmãos karamazóvi’. Égua do livro. Seguramente, é o melhor que li até agora. Até agora. Dostoiévski é aquele tipo de literatura impraticável atualmente. Somente o gênio de um cristão ortodoxo vivendo em uma sociedade completamente repressiva, com alguns anos de trabalhos forçados nas costas, o vício do jogo na consciência, o peso de viver na periferia do mundo, poderiam engendram linhas de grandiosa beleza, linhas de sincero sofrimento, linhas de imponente esperança. Talvez, ele esteja certo. Talvez, a beleza salve o mundo”

Só havia sentido pela escrita, produzida à mão, na qual expurgava sentimentos no rasgar, no ferir, no desgastar da tinta sobre o papel, aqueles ruídos lhe passavam a impressão de estar vivo: a sua respiração voluntária.

“Hoje, acordei cansado. Dez horas da amanhã. Pensei que fosse domingo. Era quarta. Não fui mais uma vez ao trabalho. É a terceira vez esse mês. Desse jeito, acho que quero viver de luz, de fome, na rua, junto a um exército de seres humanos invisíveis, que apenas existem socialmente em função do cheiro que ferem as narinas da boa sociedade. Mais meia hora, levanto definitivamente. Tomo banho. Água fria. Sinto-me vivo. O arrepiar da água fria faz-me sentir vivo. Enxugo-me em alguma toalha velha, suja, jogada por cima dos móveis. Visto uma roupa qualquer. Abro as janelas para entrar ar e luz naquela caverna de escuridão, mofo e chão por varrer. Olho a porta, no chão, correspondências. Contas de água, luz, telefone. Um aviso do senhoril: aluguel atrasado por dois meses – quitar até o dia quinze. Hoje, dia quatorze do mês de maio. Merda, vence amanhã. Não tenho um puto. Com fome. Geladeira, sem comida. Água em abundância. Tomo um copo e sinto a água gelada lutar com a fome. Que merda de vida fudida”

Para de escrever. Lê mais uma vez. Duas, três vezes. Com a certeza, balança a cabeça negativamente. Faz mais uma bolinha e joga no cesto de lixo com outras incontáveis bolinhas que transbordam do cesto.

“Puta que pariu. Só escrevo merda. Merda, merda, merda. Essas trivialidades que não merecem o nome de Literatura. Trivialidades...”

A caligrafia que emanava de suas mãos era digna de inveja dos mais hábeis paleógrafos de outrora. Escrevia na caneta tinteiro herdada do pai, com as letras ensinadas pela mãe.

A razão de sua dor estava na memória.

Nas lembranças que constantemente vinha lhe afrontar, lhe questionar, lhe dilacerar as poucas forças do coração, as quais serviam de matéria para o seu hesitante ofício de escrever.

Era como um trabalho que via o tempo gasto sobre a mesa velha do seu quarto, abarrotada de livros e papéis rascunhados, notas, correções, escrevinhando textos e mais textos consumidos por eventos da sua memória. Nunca mostrara a ninguém os seus escritos.

Escrevia somente para si.

Não queria ouvir qualquer crítica, impressões, opiniões sobre os seus textos. Sua vida, suas reminiscências, seu passado estavam lavrados naqueles papéis.

“Escreve que a vida passa. Rapaz, escreve que a dor passa”.
Suas dores não passavam.

A memória martelava firmemente, forjava forçadamente uma imagem da vida pretérita nos tempos presentes, uma imagem que corroía a sua senilidade, marteladas aliviadas pela pena no papel.




II


Vindo do interior, de um lugarejo longínquo no sertão amazônico, no qual a vida move-se no entorno de atividades de subsistência, agricultura, pescaria, extrativismo, da praça, da prefeitura, do porto, da vida alheia, de povoar com robustas famílias o vazio demográfico destas paragens.

Cercanias nas quais o pátrio-poder é quem manda, é quem molda, é quem ordena, justifica, avaliza, impõe o sentido da vida. Herança direta dos tempos da Casa Grande. Resquícios das relações estamentais, manda quem pode, obedece quem tem juízo, de suserania e vassalagem, do favor, do apadrinhamento.

O Antigo Regime nos trópicos se perpetuava naquelas parcas ruas sem alfalto, saneamento, sob o sol tórrido, no qual o homem ainda submetia-se a duras lides com a natureza. Na igreja, nos comércios, na prefeitura. Sobretudo, nas famílias.

Quinto filho de dez – cinco moças, cinco rapazes. O pai era severo em demasia. A mãe cândida em excesso. Estudar era perda de tempo – dizia o pai. Estudar era uma necessidade – pensava a mãe.

A despeito de sua vontade, todos receberam instrução formal. Graças a sua insistência, nas suas recônditas estratégias de convencer o marido, de manipula-lhe o amor, os filhos tiveram um futuro diferente do destino posto.

Para ele, de acordo com as lições de berço, mulheres eram preparadas para as bodas, os homens para a vida. Cultivar a terra, caçar, pescar, extrair a subsistência da natureza eram coisas dignas de um homem. Da vida de um homem. Cuidar da casa, dos filhos, do marido, ser prendada, obediente, solícita, submissa, amorosa, paciente. As qualidades da mulher. A posição mediana dentre os produtores rurais da cidade evitou submeter os filhos à lavra da terra. E algunas pretensões à carreira política – sempre frustradas.

Entre os seus fora marcado pelas primeiras dores.

Tinha uma péssima relação com todos – exceto, a mãe. Nenhum deles lhe suportara. Calado, quieto, introspectivo, consideravam-no um esnobe por conta dos estudos bem sucedidos. Na verdade, reputavam lhe execráveis qualidades.

Os irmãos odiavam-no por acreditar que ele tinha atenção, afeição, carinho em demasia da mãe. O pai compartilhava do mesmo julgamento. As relações pai e filho eram de igual conflito. Senão, pior. O genitor irritava-se com as horas a fio que aquele menino gastava lendo, estudando, debruçado sobre livros, papéis, jornais, revistas. Tudo aquilo era intoleravelmente inútil. Arrependera-se amargamente do dia que deu ouvido a sua mulher e permitiu tal inutilidade na vida de seus rebentos.

As irmãs detestavam-no por cogitarem que toda aquela irritação do pai era cuidado excessivo, zelo excessivo, amor excessivo, demonstrado, em alguma medida, de maneira rústica, vulgar, rude, por aquele homem que era profundamente admirado, idolatrado, amado por suas filhas.

A mãe, com sua sensibilidade apurada, era cônscia de todos estes pormenores de sua casa, sentia-se impotente diante do marido e dos filhos, submetia-se a tirania da aliança e dos frutos de seu ventre, contudo, invariavelmente, havia no seu coração uma particular afeição por aquele menino sereno que se dedicava incansavelmente aos estudos.

Ele, por sua vez, viu-se obrigado a maturação precoce, homem em corpo de menino, infância abortada, para suportar este ambiente familiar hostil, a rejeição era ignorada com a força de sua neófita inteligência, simplesmente negava com o ímpeto do seu coração infante qualquer união com a massa amorfa de desconhecidos consanguíneos ao lado do leviatã patriarcal que o havia plantando no jardim maternal.




III



Apenas o amor daquela mulher lhe importava.

A primeira frustração.
Engoliu a seco estas emoções impossíveis. Terríveis, abomináveis, desprezíveis segundo a moral estabelecida. Os sentimentos são terríveis, indelevelmente terríveis, seja para o bem seja para o mal, a sua torrente nos faz tombar no mar bravio do deleite, nas ondas descontroladas do coração, a revelia do nosso leme, ficamos completamente a deriva, sempre, a deriva sempre.

Seus pensamentos diziam não. Seu coração dizia hesitantemente sim. Depois que tomou conhecimento completo da situação, sua vida nos domínios familiares fora de profundo conflito interior. Ele mesmo se martirizava, se mortificava, se punia. Procurava nos estudos refúgio, alento, escape. Na confissão, era o pecado inconfesso. Na reza, o primeiro pedido de perdão. Não conseguia entender. Porque Deus criaria seres com tão pecaminosos desejos.

Mas, não, sacrílego, não podia pensar desta forma, herege, apóstata. Seguramente, Deus, do alto do seu trono de justiça, com todo o seu poder, glória e majestade, não deixaria tal abominável desejo impune. Deus lhe castigaria, cedo ou tarde. Sabia da punição, presente ou futura. A maldição de Édipo lhe marcara os anos da inocência. Infância a deriva.

Um dia encontrou o norte, além da casa paterna. Norte trágico.

Domingo ensolarado, manhã fresca, brisa suave, cedo fora para a crisma. Sua vida marcava doze anos de existência. Mas naquele domingo havia algo diferente. A mãe estava inquieta. Os irmãos calados com o silêncio da satisfação. As irmãs mecanicamente disfarçavam alegria com as amarras da dissimulação.

Ele conhecia o mover das peças de xadrez. 

Havia recebido um xeque.

Meu filho, tenha paciência ao entrar no seu quarto – com a voz pesarosa e serena, disse a mãe, sabendo que a situação era delicada. Frio na barriga. Boca seca. Garganta embargada. Adentrara ao quarto. Espaçoso e amplo, com cinco camas e três armários, o quadrilátero alojava confortavelmente seus habitantes. Só havia uma mesa no quarto. A sua mesa. Totalmente modificada. Arrumada. Sem sua permissão. Sem os jornais e as revistas. Exclusivamente os livros permaneciam.

Catatônico, indignado, desrespeitado. Ele não entendia os pretextos da rejeição, na maioria das vezes, ignorava-o, porém, agora era diferente, porque até aquele momento era simbólico, com a intervenção, tornou-se material, físico, real. Não emitiu uma palavra sobre o evento, se tal dependesse de letras, palavras, frases para existir, nem seu espectro tomaria figura. Soube depois pela mãe que os livros foram poupados graças ao seu pedido. Jornais e revistas, não tiveram a mesma sorte, foram sumariamente queimados, todos – versão oficial: evitar entulho, promover higiene, manter a saúde.  Uma benesse do pai.

“Uma coisa fique bem clara, nesta casa, debaixo deste teto, sob o meu sustento, sou eu quem manda, sou eu quem dou as ordens, a minha palavra é lei. Eu não quero doutores na minha casa. Não quero insolências. Não quero contestações. Eu estabeleço a ordem e quero sua manutenção. Quero apenas bons e obedientes súditos. Eu sei o que é o melhor para todos. Portanto, eu concebo a justiça, eu divulgo a justiça, eu aplico a justiça. Sentencio e penalizo. Sem objeções. Quem está errado não tem direito a defesa, restringe-se por seu erro, a receber a sentença e arcar com o castigo”

“Certo, senhor meu pai, a casa é sua, as regras são suas. Mas não posso furtar-me de uma observação: se o meu erro foi dedicar-me com afinco aos estudos, esforçando-me para honrar todos os investimentos realizados no meu sustento e educação, só posso supor que a tua ordem pauta-se no estabelecimento da ignorância e pela manutenção da ignorância”

“Garoto insolente, não me desafia. Não abuse da minha paciência. Os próximos serem queimado vão ser estes teus livros inúteis. Agora, vai procurar alguma coisa de útil pra fazer, além de estudar estas coisas inúteis”

“Com sua licença, senhor meu pai”

“Some daqui antes que eu te dê uma sova”

“Homem, não achas que és muito duro com este menino, ele é apenas esforçado nos estudos, o que há de mal nisso?”

“Mulher, maldito o dia que te dei ouvidos, eu não quero doutores na minha casa, ninguém precisa questionar meus argumentos, minha autoridade, minha soberania. Era pra ele está se dedicando na terra, cuidado dos bichos, lavrando, semeando, cuidando da terra, como os demais irmãos dele. Mas não, ele tá aí, enfiado nos livros. Desse jeito, vai até virar pederasta”

“Não fala uma coisa dessas homem de Deus. Isso é maldição! Deus castiga! Eu sei que és homem bom e correto, não podias deixar de dar oportunidade de estudo aos teus filhos, aquela que eu e tu não tivemos, com todas as dificuldades, conseguimos tirar apenas o ginasial. Estás dando um futuro melhor pra eles. Não seja tão cruel com ele, é apenas um rapazinho. Se não quer incentivar, mas não critique. Não vai te custar nada”

“Tá bom, mulher. Deixa esse assunto pra lá. Que assim seja”


Desforra – era idéia-fixa do menino.

Deu o prazo de duas semanas a si mesmo.

Formular um plano.

Aquilo não podia passar impune.

Uma semana passou. Já sabia o que fazer. Domingo. Não foi a crisma. Ficara em casa estudando, consultando os livros, os jornais, as revistas, novos que mãe lhe conseguira, escrevendo copiosamente. Principalmente, escrevendo.

Utilizava a caneta tinteiro do patriarca.

Sagrada. Relíquia. Herança. Era uma das poucas lembranças que ele carregava do avô. Ninguém tocava naquele objeto. A caneta tinteiro, de quando em quando, era usada de maneira marginal, empregada em atividades vulgares de assinaturas e notas esparsas, assumia o estatuto de amuleto, ostentando quem lhe cerrava nos dedos a posição de um suposto letrado que debilmente escrevia o nome.

Ele passara a amanhã toda na casa de um tio. Regressara para o almoço. Fora chamar todos a mesa, como mandava o costume. Entrou no quarto, avistou-o estudando. Irritou-se. Chegou mais perto. Viu pelas costas o movimentar da mão levando a caneta ao tinteiro.

Cólera. Fúria. Ira. Abominação.

Na agitação rápida, ele apenas sentiu sua mão ser agarrada, palma para cima, a caneta retirada abruptamente de seus dedos, de um só ímpeto, cravada com toda a força, com o vigor de uma martelada, ultrapassando a carne, os ossos, o sangue jorrou, no barulho seco da lâmina na madeira. Olhar satisfeito do carrasco. A expressão dolorida do cordeiro imolado. Meio-dia. Trevas. Cavou-se o fosso eterno. Expiação. Crucificação sem salvação.

Seguiu-se o juízo.

Mil vezes amém.



IV


Dor. Vergonha. Foi o limite. Chaga na mão direita.

“Se antes eu apenas ignorava aquele homem estúpido, vergado pelos anos da vida no campo, hoje eu restrinjo-me a nutrir um profundo ódio. Se eu pudesse, não o mataria. Matá-lo seria igualar-me a sua estupidez. Não, toda a aversão, todo o repúdio que sinto por aquele animal, que me rasga o peito, deseja ardentemente que ele viva bastante, viva eternamente, porque cedo ou tarde, ele pagará. A vida lhe cobrará amargamente. Apesar de querer fazer alguma coisa a respeito, na hora, pelo menos, não tive reação, fico surpreso comigo mesmo, pensando agora, mas foi muito rápido, e a dor me paralisou. Agora somente ela me move”

Passado um mês, morava com um tio, parte materna, na capital. Apenas a mãe sofreu. O pai julgara ter feito justiça. Os irmãos ficaram com medo, as irmãs aterrorizadas. Ninguém falou nada. Um silêncio que ensurdecia, um emudecimento que gritava no peito de todos. Não existiu. Aquele domingo não existiu. O ato não existiu. O irmão jamais havia nascido. Sem lembrança, sem saudade, sem referência.

A mãe não suportava. A atmosfera familiar tornou-se intolerável. Contra sua vontade, os acontecimentos tomaram aquele desfecho. O seu filho mais querido sofrera uma violência atroz, recebendo por recompensa o desterro na casa de parentes. A mãe sentia a dor de um membro amputado. A ausência de uma parte vital de seu corpo.

Chorava todos os dias. Todas as noites, as lembranças do ato, do filho, da situação, daquela casa, do seu marido, escorriam-lhe dolorosamente pelos olhos. Pedia forças, suplicava ao Criador. Conversava com o padre, ele limitava-se a lhe dizer: deixa nas mãos de Deus. Ela deixou.

Os filhos viam o seu definhamento físico, palidez, olheiras, magreza extrema roubarem-lhe a beleza, usurpar-lhe a vida. Eram indiferentes. O marido não falava nada, não precisava, recriminava aquele ato de autoexpiação da mulher simplesmente ignorando-o. Ela deixou. Deus lhe abandonara. Todos lhe abandonaram. Sozinha. Não sentia nada. Nem sede, nem fome, nem sono. Nem a mais remota vontade de viver.

Seu coração mantinha-se pulsando, a respiração funcionando por saber que seu filho querido estava vivo e bem. O sofrimento que dilacerava o seu peito era a única coisa que a fazia sentir-se viva. A dor lhe fazia sobreviver. Ela deixou. O fardo era pesado em demasia.

O trinta e oito do marido. Cabeça. Cano frio sobre o cabelo. Muito medo. Dedo, gatilho. Barulho seco. Leveza. Paz. Muita paz.
“Desculpem-me querido marido e filhos. Eu não suportei. O fardo é muito pesado. A indiferença de vocês me matou. Aquele garoto que vocês detestavam era o motivo da vida ser minimamente feliz, ele retinha todo o meu amor. Retiro-me desta vida com a amargura de quem foi fraca, de quem desistiu sem lutar, e quer ver suas consciências definharem no mais sórdido remorso. Mais uma vez eu digo: vocês, unicamente vocês, são responsáveis pela minha morte. Adeus”

Um papel dobrado, escrito à mão, sob o porta-retratos com a foto do casamento.

A tragédia fincou morada definitiva naquela casa.




V



Os primeiros meses de adaptação foram difíceis.

O tio era severo, mas amável. Alto, magro, barba, calvo. Era advogado. Iniciando na carreira, futuro promissor. Sua mulher tratava-lhe tal qual um filho. Mesma altura, ligeiramente acima do peso, cabelo curto, jovem, bonita. Era contadora. Trabalhava no escritório do pai, gostava da profissão, muito esforçada – tão somente.

Não tinham filhos. Uma das grandes frustrações do casal. Este evento crucial que impedia se constituírem em família: um filho, um herdeiro, um rebento. Por isso acolhida foi imediata, de maneira receptiva e alegre, apesar da ocasião. O casal atravessa uma crise: a impossibilidade de ser família.

Os dois acusavam-se, bate-boca, discussões intermináveis, arrependimentos, mas sabiam que a culpa não era de ninguém, nesta história, não havia culpados, apenas vítimas e resignação. Apesar de tudo, amavam-se perdidamente.

Souberam da situação do menino. Ele quis intervir, processar aquele monstro, maus tratos a incapaz, menor de idade, com exame de corpo e delito, o testemunho do garoto, ganharia a causa, com toda a certeza. À custa de tempo e exposição da família – o ônus da causa. A irmã lhe implorou para que nada fizesse. No primeiro contato dela, ele não hesitou em ajudar. 

Transformar o sobrinho em filho foi o único pedido. Contrariedades, senões, dificuldades postas, ele aceitou a delegação. Consultara sua mulher antes de tomar qualquer decisão. Ela assentiu imediatamente. Queria ser mãe, malgrado sua biologia, malgrado as circunstâncias. Não importava, o chamado de ser mãe, inerente a condição feminina, era incomensuravelmente mais forte.

O menino não dava trabalho. Sua presença restabeleceu o clima amistoso, a paz, a serenidade ao lar. Às vezes, sentia-se por sua falta. Trancado no quarto, sua caverna era abandonada em cotidianas ações: banheiro, refeições, escola. Sem barulho, bagunça, alvoroço. Não pedia nada, sem birra, sem más criações. Solicitava, quando estritamente necessário, algum dinheiro para comprar livros, revistas, jornais, com certa regularidade, e mais esparsamente, para tinta e papéis.

Os tios estranharam. Levaram-no em analistas, aquele isolamento não era normal, porém suas suspeitas foram inócuas, sem qualquer distúrbio ou problema psíquico diagnosticado, respeitaram a forma de ser do menino. Segundo os especialistas, ele sofreria de precocidade, de uma admirável precocidade. Talvez sua progressiva inserção na escola fizesse ter amizades, evitando tal isolamento.

A escola lhe instruiu amarguras novas. Na casa do tio, terminou as séries da educação básica – primeiro e segundo grau, instrução iniciada ainda sob o jugo da casa paterna. Para o vestibular, medicina. Doutor – irritar o pai. Entretanto, não obteve êxito, a excessiva concorrência e a sua pouca habilidade nas matérias de cálculo renderam-lhe notas máximas nas disciplinas de humanidades e na redação.

Almejava a medicina para ajudar efetivamente uma das áreas mais precárias de sua terra. O fato capital para tal escolha foi presenciar a morte de um tio paterno. Acometido por um infarto, morreu como um cachorro por falta de atendimento. Nunca tinha visto a morte de perto, mesmo que fosse de um parente distante.

No velório, diante das pompas, dos prantos, das rezas, ficou olhando fixamente para o rosto plácido do morto. Naquele instante teve a consciência total da finitude da vida – dolorida constatação. No entanto, depois de pensar melhor no assunto, percebeu o consolo que é saber que tudo tem um fim – a finitude tornou-se algo confortável.
 
Dois meses de exílio, chegou uma carta: a morte da mãe era a notícia. Escrita por uma de suas irmãs, as linhas lacônicas deixavam claras a dor da perda e transcrevia mortiferamente as derradeiras palavras maternas. Ela o amava.

Quase ficou louco. A camisa de força não lhe prendeu porque as raízes da razão eram mais profundas e fortes, elas resgataram sua sanidade, pondo-a de pé, passo a passo, alguns descompassos, porém manteve o passo firme. Sobretudo, em resistir a cicuta do suicídio. Passou dias, passou semanas, arquitetando seriamente dar cabo da vida. Não conseguiu por dois simples motivos: covardia e vontade de viver.

Ultrapassado o luto, fechou-se em si. Estudou avidamente, esmerou-se nos cálculos, na exatidão da vida consignada pelas ciências naturais. Aprovado em Direito – influência do tio. Mais um bacharel, mais um doutor, mais um advogado – o exame da ordem foi de tabela. Foram cinco anos de estudos inúteis para a sua formação humana. Na verdade, constatou que o mundo universitário está preocupado com qualquer outra coisa, exceto a formação humana.

Aprendeu valiosas lições no Direito. Primeiro, a maneira de legitimar juridicamente com prescrições, parágrafos, incisos, códigos hipócritas uma ordem social profundamente desigual, perversa, abominável. Segunda, utiliza-se do cinismo, da retórica e da consciência vendida como instrumento de trabalho. Terceiro, antes de findar o curso: já sabia a que tipo de pessoa odiar, o que não queria ser e não estudar. Terminou o curso querendo fazer Física. Depois da faculdade, foi morar só. Depressivo pelo tempo perdido, ainda pegava alguns casos, advogava para pagar as contas, no tempo livre estudava para concurso. Fechou-se definitivamente em si.

Recebeu uma carta. Notícia: estava órfão.

O pai fora assassinado devido disputas políticas.

Ficou triste.

“Nunca tive tendência gregária na vida. Talvez seja herança do berço. Inadaptado a qualquer outra vontade humana que não fosse a minha. Ao largo de qualquer agrupamento humano que me impusesse comportamentos contrários as minhas crenças pessoais. A honestidade em cumpri-las sempre foi um das minhas posturas mais inflexíveis. Nunca relativizei minhas idéias – claro que nunca me faltou bom senso, operei no limite do bom senso. Não acredito que isso seja egoísmo, individualismo. Em alguma medida, isso seja tributário a remotos instintos de autoproteção de quem se restringia a afiar as garras secretamente na crença de dias melhores em razão de sobreviver entre feras, recusando-se peremptoriamente a compartilhar da mesma condição de fera. Sou humano e mantive-me humano. Vivendo entre animais, mantive a dignidade de ser humano. Não sei se por sorte ou azar, porém mantive. Julgamentos deste tipo não me valem muito agora – nunca valem. Não tardou, por essas circunstâncias e tais posturas, sobretudo no período de desterro, abandonar a igreja, lugar cuja exigência de demasiada fé e parca dúvida não necessitava da minha presença. A mesma coisa com o partido – obediência cega ao programa, alegações de centralismo democrático, não resistiram a minha crítica detida dos fatos cotidianos, todavia mantive as minhas inclinações políticas para o lado canhoto do poder. Na verdade, sinceramente, sempre me senti como um átomo incomunicável, isolado, aleatório. Um átomo desintegrado das moléculas sociais de sustentação da dura matéria da boiada humana”

Contudo, este homem não ficou alheio às paixões, ninguém fica impune. Ainda nos tempos de faculdade, apaixonou-se perdidamente. Comprometida, discreta, inteligente, encantadora. Era um dos raros casos de pessoas que conseguiam ir além do óbvio naquele curso de bem nascidos. Calculava as oportunidades de conversa, trocava algumas palavras com razoável frequência, o mínimo para ser notado. Certa vez, ela veio, espontaneamente, tirar uma dúvida de direito penal, conversaram bastante, ela tirou a dúvida, e percebeu o notório interesse. Não estava bem com o namorado, precisando de ajuda em constitucional.

“Vais estar ocupado no fim de semana?”

“Não, não. Por quê?”

“É que estou precisando estudar constitucional, estou vendo que vou reprovar nesta matéria. Poderias me ajudar?”

“Claro que sim. Não sou tão bom em constitucional, mas acho que posso ajudar”

“Não seja modesto, és o melhor aluno da sala”

“Sou apenas esforçado”

“Ainda bem que existem pessoas modestas. Raros exemplares... hahahahaha... Então, que tal sábado a tarde?”

“Pra mim, tá ótimo”

“Toma, tá aqui o endereço do meu prédio. Não vai atrasar. Deixa eu ir. Beijos”

“Tá bom. Tchau”

Os pais não estavam. Viajaram o final de semana. Estudaram com afinco. Ela tomou a iniciativa. Despertava uma excitação tão forte nela por conta da sua descrição e Inteligência – garantia da impunidade. Ele deixou-se levar pela paixão. Transaram tudo o que fosse possível. Foi embora no domingo à noite.

Na semana, tudo normal. Nada aconteceu. Ele ficou angustiado por gostar de alguém tão filho da puta. Porém engoliu seco. Tratou-a normalmente. Ela sabia disso. Apenas as lembranças vinham e torturavam. Ela, sempre com as mesmas conversas de tirar dúvida. Olhar provocante, ela serpenteava seu o corpo farto em carnes, sabia manipular ardilosamente seus encantos. Uma adorável vadia. Nunca mais aconteceu.

Esqueceu a duras penas. Depois de muitas festas, porres e outras fodas. Bêbado ficava razoavelmente sociável, agradável, comestível. Aquelas condições atendiam suas necessidades básicas: afogar as mágoas no álcool e afogar o corpo na volúpia. Depois dos porres homéricos, as ressacas trágicas. Levou a vida assim por um tempo, até fechar-se novamente. Focar, prioridade: passar num concurso.

Passou. Tribunal Regional Eleitoral. Seis horas de trabalho diário. Não fazia rigorosamente nada. Aparecia algum volume de trabalho, algo totalmente tolerável, nos períodos de eleição, quando tinha que emitir título eleitoral e toda a burocracia das eleições: inscrições de quadrilhas sob a legenda de partidos políticos. Anos, anos e anos nesta estagnação.

Recentemente, apaixonara-se. Na verdade, nestes últimos tempos, começou a sentir sensações diferentes, a qual lhe causava extremo pesar, amargura, vergonha. Lutava, resistia, combatia. No entanto, eram mais fortes. Velho, conservando alguma robustez, ficava de pau duro vendo os rapazes da repartição. Criara extrema afeição por um deles. Devia ter uns vinte e dois anos. Forte, alto, atlético. Nunca se atreveu a qualquer abordagem. Doía-lhe sentir aquilo, doía ainda mais reprimir. Mais uma paixão frustrada.

Começou a frequentar bares, saunas, clubes. Descobriu um mundo novo, um universo em expansão, no qual diversas pessoas conhecidas lhe davam boas-vindas com olhares imponentes. Demorou muito para se acostumar com aquele ambiente. Demorou mais ainda para se relacionar com as pessoas. Acostumou-se, aceitou-se, os desejos afloraram. Depois de um mês, estava chupando, sendo chupado, dando e comendo cu, indiscriminadamente, com múltiplos parceiros, verdadeiros banquetes, festivais bacantes. Passados os ímpetos iniciais, sentiu falta de peitos, cu e buceta. Satisfeito completamente, começou a frequenta periodicamente os ambientes. Até que se tornou raro. Fechou-se novamente.

Pela derradeira vez. Sentiu um cansaço repentino, algumas dores no peito, náuseas, dores de cabeça. Foi ao médico – detestava médicos. Fez uma bateria de exames, um check-up total. Uma semana depois voltou com o resultado dos exames.

“Então, o que dizem os exames?”

“Meu caro, os sintomas que vens sentido é devido algumas doenças detectadas, dentre elas, uma é grave”

“Qual? Diga logo? Eu sabia... É câncer?   “

“Não. Diabetes, gastrite, quase ulcerando, cirrose em estágio mediano”

“E qual delas é a mais grave?”

“Eu não disse ainda”

“É o câncer né?”

“O senhor é Soro positivo”

Silêncio.

Olhar de Pânico. Terror. Pavor.

“Obrigado, médico, pela sentença”

“Não perca a esperança, hoje há uma expectativa de vida longeva com qualidade. Vou lhe prescrever os remédios, o coquetel e o tratamento necessário, seu quadro nesse momento é delicado, são várias doenças em um sistema imunológico fragilizado, mas com o tratamento feito, estes sintomas desaparecem, e é possível viver com qualidade”

“Caralho, porra, eu já disse obrigado”

“A tua sorte é que não tens esperança, vais apodrecer rapidamente. Velho fudido”



VI


Um tiro de trinta e oito na cabeça.

O corpo jaz sobre a cama. Uma poça de sangue.

Um papel dobrado sob o porta-retratos com a foto da mãe.

Em cima de sua mesa de trabalho.

Ao lado, uma pilha de papéis, escrito na folha de rosto:

“Memórias de uma vida no exílio”

“Quem ler este papel, por gentileza, realize os desejos de um morto. Joguem minhas cinzas perto do túmulo da minha mãe. Vendam este apartamento e deem o dinheiro ao meu tio. Se o meu livro for publicado e vender alguma coisa, o dinheiro vai pra ele também. Ele saberá o que fazer com o montante. Caso não seja, destine-o a crítica roedora dos ratos. Por fim, aqui tomba mais um africano”