domingo, 11 de setembro de 2011

O beco



O conhecido beco do barriga. Ficava no fim de uma rua ainda não asfaltada da parte mais podre do Jurunas. Essas vielas que não merecem o nome de ruas, sem saneamento básico são quase labirínticas, com inúmeras construções irregulares, são puxadinhos sobre puxadinhos, barracos ao lado de barracos, em uma profusão quase infinita de postes de madeira barata improvisados com um emaranhado de fios de “gatos”. Nas suas margens, botecos nojentos que fedem a cerveja choca, cigarro barato e mijo, um cheiro acre de mijo, barracas de jogo do bicho, banca de venda de bombons, cigarros e drogas, muito lixo nas esquinas, crianças raquíticas com buchos cheios de vermes advindos da miséria de suas parcas vidas, brincam de pescar alguns peixinhos que vivem nos esgotos abertos e sem tratamento. Cachorros pirentos guerreiam todos os dias em brigas campais pelo os restos de lixo em putrefação. Esgoto a céu aberto, poeira e calor. Poeira, muita poeira. Calor, de quase enlouquecer. O dia inicia assim no beco do barriga. Essa designação se deve a origem do beco ser advindo do quintal da casa do Barriga. Barriga, apelido das ruas, tinha na sua certidão de nascimento o nome de Tibério Graco da Silva, e tal alcunha se devia ao seu protuberante abdômen cultivado por anos de cerveja e comidas gordurosas – e o seu nome de batismo foi escolhido por seu pai, um semi-analfabeto que gostava de História romana. Altura mediana, visual de bicheiro, com pulseiras e cordões de ouro falso, meio calvo, e dente de ouro. Sempre fedia ao suor do calor constante dos trópicos. Freqüentador assíduo do baile da saudade. Barriga estava na flor dos seus cinqüenta anos, ainda viril e libidonosamente asqueroso em suas cantadas canalhas. Desejava ninfetas, queria carnes firmes e inexperientes, apreciava provar o cheiro e o gosto ainda inocente de meninas se tornando mulheres. Era dono de uma “pousada”, no caso, uma casa grande com vários quartos inadequadamente mobiliados, enfileirados em um corredor longo com um banheiro podre no seu fim. Todos os quartos sempre estavam ocupados. As pessoas se sentiam seguras sobrevivendo ali naqueles cubículos malcheirosos e insanamente quentes. Alvira era uma de suas inquilinas – conhecida como Dona Alvira. Mulher calejada pela vida, de origem nordestina, veio de Natal ainda criança, com a família, fugindo da seca, e devido ao alcoolismo do pai, que lhe violentara constantemente e lhe surrava a exaustão, fugiu de casa e viveu a vida inteira como lavadeira. Adolescente, conheceu Godofredo, que era despachante no porto, apaixonaram-se e moraram juntos. Engravidou. Na noite em que ia dar a notícia, com uma felicidade incontida, recebeu a notícia pelos vizinhos que seu homem havia sido morto em um assalto. Sentiu um dor latente, ficou triste, mas sabia que a vida sempre continuava. A essa altura morava na Pedreira, após o facto, mudou-se para o Jurunas. Precisamente no beco do barriga. Morava a quinze anos no beco. Nasceu-lhe uma menina, Sofia era seu nome – nome roubado de uma das filhas de suas patroas. Sofia era a imagem a formosura em pessoa, seios volumosos, pernas grossas, e uma bunda bastante saliente para uma moça de sua idade. A mãe trabalhava exasperadamente, todos os dias, fazia hora extra, para que a filha se dedicasse exclusivamente aos estudos. Sofia correspondia piamente aos desígnios da mãe, era a aluna mais estudiosa de sua sala, gostava muito de Literatura e História, escrevia muito bem, e aspirava a fazer Direito. Queria ser juíza e ajudar os pobres, seus companheiros de infortúnio existencial. Ficava profundamente incomodada com o assédio dos homens do bairro. “Ei, pretinha, vou te chupar todinha”, “Ah, mulatinha, tua buceta é minha”, “Ainda vou comer teu cu gostosamente, morena”, “Vem cá, vem, que vais levar muito pintada na cara” – eram alguns dos “flertes” que ouvia diariamente nas ruas do bairro. Ela já bloqueava isso espontaneamente – mesmo que sentisse uma sensação muito boa por ser tão desejada. Mas ficava excitada quando Barriga lhe cantava. Ela não sabia a razão, mas sentia-se atraída por aquele tipo asqueroso. Certa vez, na hora do café, Alvira, Sofia e Barriga sentaram juntos na mesa da cozinha para o repasto matinal – isso era incomum. Foi a primeira vez que a mãe havia visto as insinuações do velho Barriga para o lado de sua filha, e, por sua vez, a excitação da filha com os olhares desejosos dele. Não disse nada. Não esboçou qualquer reação. Mas, já tinha a firme convicção do que fazer. Ia voltar mais cedo do trabalho hoje. Sabia que Sofia vinha depois do almoço da escola e ficava à tarde sem fazer nada. Alvira sempre chegava as seis ou sete da noite. Às quatro da tarde, ela chegara ao quarto. Percebe que tem mais alguém no quarto além de Sofia. Não faz barulho, vai até a cozinha e pegar a maior faca. Chega perto da porta do quarto e ouve alguns gemidinhos. Era a certeza que precisava. Chuta a porta e presencia a cena: Barriga está de joelho entre as pernas de Sofia, chupando-a avassaladoramente, e ela gozando, gemendo, com suspiros, totalmente nua e suada. Os dois se assustam. Alvira não deu tempo para a reação dos dois, sobretudo, de Barriga. Deu uma facada seca e forte a altura do peito, para tirar logo o ar. Ela sentiu a lâmina entrar cortando a carne macia e a rigidez das vértebras, e o sangue jorrando ao sair da faca – ela sentiu um mórbido prazer nesse ato. Sentiu-se vingada.  Barriga caiu sentado, sem reação. Ao mesmo tempo, tirou as suas calças e cortou o seu pau e bolas – sentiu novamente prazer. Ainda mais vingada. Barriga ficou atônito, olhando paralisado o seu pau sento cortado, o ar lhe faltava, a vida lhe faltava. Alvira fez apenas uma pergunta para Sofia, que assistia a cena com um olhar de terror, chorando copiosamente, esperando a sua sentença: esse filho da puta enfiou o caralho em ti? És ainda virgem? Ela apenas urrou baixamente: não, não enfiou. Na mesma hora, Alvira apenas mandou Sofia vestir uma roupa e pegar duas mudas. Barriga estava inerte no chão, procurando ar e se esvaindo em sangue, sangue escuro e densamente oxigenado, advindo de uma artéria. Sofia e Alvira foram imediatamente embora, sem qualquer suspeita, do beco do barriga. Foram para a casa de uma amiga sua no Barreiro. Alvira tinha apenas uma idéia-fixa na sua fuga: a vida sempre continua.

(Felipov)

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom, bobinho. Muito bom. ^^ Rafa.

Anônimo disse...

cru, ríspido.

Anônimo disse...

Aluísio de Azevedo ficaria orgulhoso!Eva. :D

Anônimo disse...

- Sofia safadenha, usa o Barriga e no final saí ilesa.

Estou chegando a conclusão que esse povo que gosta de História são um bando de safadeeenhos!
HAHAHA.

Gostei.

Nicoly Uchôa. :D

Postar um comentário